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20 CENTAVOS NA TERRA DE HORÁCIO HORA

7 de março de 2016

A moça andava a esmo na intenção de fixar a ruela na memória. Casas pequenas caiadas de claro, faiscando no sol áspero da manhã alta: São Cristóvão. Nome bonito como a cidade, construída no topo do morro para poder avistar longe, ao redor. Já tinha estado no museu, coberto de cima a baixo pela presença de Horácio Hora, excelente pintor sergipano do final do século XIX, nascido ali perto, em Laranjeiras, pouco conhecido por causa da insistência de se o­lhar mais para fora do que para dentro do Brasil. Feito boa provisão de cocadas no endereço onde tudo estava disposto para o comércio com os de fora: das sacolinhas de plástico às cadeiras austríacas ao longo da parede. Conhecido o orfanato das irmãs – só para meninas –, passarinhas rodopiando em torno cheias de afeto e perguntas. Vontade de levar todas embora e ser mãe de todas, como elas também queriam. Saiu com o coração apertado. Separou-se dos outros que visitavam do mesmo jeito, comprando doces para a viagem de volta e foi andar sozinha. Cabeça, como sempre, nas nuvens, nem atentou para a figura de estrangeira contra o fundo pobre das muretas e dos portõezinhos baixos: cabelo, pele, movimentos, roupa… Tudo… Não se dava conta e seguia ocupando os olhos sem perceber as pessoas vendo – nítida – a passagem dela.

– Moça, a senhora me dá vinte centavos? – uma vozinha ansiosa puxou-a de volta. Era um menino lindo, miúdo, olhos grandes comprometidos com alguma coisa maior que ele. Descalço, torsinho nu, em pé no meio-fio e expressão tão extraordinária como talvez algum dia possa ter tido um anjo, no tempo em que os anjos eram delicados e feitos de luz.

Durante uma naco de segundo a moça temeu desintegrar. Em vez disso, sempre andando, abriu a carteira, tirou uma nota de dez reais e estendeu para o menino.

Quase sufocado, controlando o sobressalto de forma comovente, ele perguntou de novo apertando o passo para ir no ritmo da moça:

– A senhora pode trocar por duas que fiquem iguais a essa pra eu dar uma pro meu primo? – e  pôs a nota de volta na mão da moça. Só aí ela divisou outro menino, em torno dos mesmos oito anos, cabelo escuro, também sem sapato nem camisa e nem a mesma doçura determinada, olhando para ela do lado oposto da rua, rente ao correr de casas. Tirou mais dez reais, deu para o primo, devolveu para o menino a nota que já  era dele e, acelerando a caminhada, despencou peito adentro.

– A senhora é boa! – insistiu o menino, voltando a trotar miudinho ao lado das passadas largas. – Vou dar pra mãe!

Pondo o pensamento outra vez no lugar, a moça deu com o menino quase correndo ao lado dela, feição contorcida no esforço de reter a lágrima e o espanto. Abriu ainda a bolsa, esticou outras duas notas de dez desentranhando um sorriso mole e uma frase convencional qualquer para impedir que o sentimento a esta­telasse de vez. E continuou na carreira porque não queria que o menino visse o choro descendo. Mas ele a alcançou e, o que disse, a moça não ouviu. Entre os dois se estendera uma agonia espessa que abafava o som, desfocando tudo. Ficaram bom tempo assim olhando um para o outro sem dizer palavra, naquele encontro insólito embaixo do sol duro, na cidadinha nordestina.

Logo depois ela foi embora. Se aquela mãe era de verdade ou de mentira não iria saber nunca e nem tinha a menor importância. E se a lágrima era encenada, repetida a cada encontro com alguém de fora, menos ainda.

Ela voltou pra o lugar de onde tinha vindo e o menino ficou entregue sabe-se lá a qual destino. Não deve ter durado nada na lembrança dele, tantas e tão duras serão as provas que terá tido que enfrentar todos os dias: já deve estar um homem. Continuará vivo? E a mãe? E pai? Será que esse menino alguma dia teve pai?

Anos passados e, na moça, o menino continua em pezinho, firme ao lado do meio-fio, vivo e preciso como quando brotou sem que se pudesse saber de onde. Porque não é decente alguém ter que pedir 20 centavos. E porque ela nunca vira aquilo numa criança: dividir sem hesitação o pouco que tinha ganho e, emborcado na pobreza, pensar no outro com empenho igual ao que pensava em si.


COMENTÁRIOS

  • Ana Luisa, comovente o texto que expressa sentimentos que também várias vezes senti. São momentos duros mas preciosos.

  • Gracinha,repito o que disse Luís Antônio. Você esteve em Assis? Tenho lembranças só boas do tempo que lá morava.

  • ana luisa Lindíssimo e comovente texto
    Meu avô paterno nasceu em Laranjeiras Sergipe. talvez ele conhecesse esses meninos. Tomara! ele era um homem bom, médico Fabricio vampre

  • Do inicio ao fim um primor de texto. Um encontro comovente que ficou para sempre gravado no coração. Obrigada.

  • “Gracinha”, Ana Luísa. Uso para sua crônica os termos que minha mãe, que você (outro dia mesmo) conheceu em Assis, SP, gostava de usar quando curtia e apreciava alguma coisa ou alguém.

  • Primor de construção! Mexe bem dentro da gente e comove fundo! Porque não é digno, não é não. Muito lindo!

  • O presente das segundas foi saboreado devidamente. Belíssimo e comovente texto.

  • Meninas passarinhas e menino passarinho, pedindo quirera.
    As vezes, tem quem dê, nem sempre, porém.
    A beleza está seu texto, além do gesto. Tive um menino como o seu, que me atacou no Glicério e, de susto, subiu-me a pressão, e fiquei cega. Ele parecia a menina da última cena de Dolce vita, do Fellini. Sem a raia.
    Nenhum problema: já sarei. Ele deve ter sido morto pelos adultos que o esperavam na esquina seguinte.
    Beijão,
    Flora

  • Nó na garganta e olhos marejados. Como não ficar? Emoção lindamente dita. Versão literária daquele filminho do sapato com o qual também nos emocionamos.

  • Ana Luisa, que soco no estômago! Aqui também não se trata só dos vinte centavos e nem de quantos mais forem… Tudo isso e o menino continuam vivos, ali, do mesmo modo, apesar dos anos passados… Obrigada, Salete

  • Quem dera o Museu possa fazer alguma coisa para mudar, pelo menos, um pouco a vida desse(s) menino(s).
    Muito obrigada!

  • Que texto! Também já estive lá. Anos passados. Penso que muitos porque o tempo engana. Somar, para quê? Gostei do lugar e do nome. Igualzinho. Andei oferecendo moeda a quem pediu. Mas não soube escrever nada sobre isso. Ainda bem. Jamais escreveria com tamanha beleza e correção. Como de costume, gostei por demais do texto e fiquei sufocado de emoção. Muito obrigado, Ana.

  • Li seu texto e amei de verdade. O computador pirou e disse que eu já havia feito o comentário que fiz, antes. O que eu disse foi que conhecia também as cidades sergipanas, com seu casario antigo e suas tradições. Imaginava a narradora perplexa diante do desamparo do menino. Obrigado pela remessa de mais esta bela e sincera postagem. Abraços, Gilmar

  • Conheço São Cristóvão e Laranjeiras. Eu senti a narradora perdida em meio àquele casario. Um texto comovente, sem uma gota sequer de pieguice. Obrigado, mais uma vez. Gilmar

  • comovente texto Ana Luisa, e especialmente linda a imagem das
    “…meninas –, passarinhas rodopiando em torno cheias de afeto e perguntas”. Quanto à dor diante da realidade do menino …aiiiiiii…


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