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A MULHER NO MUNDO DO HOMEM

25 de abril de 2016

Mais cedo ou mais tarde, no correr da vida, a mulher acaba identificando os fios de uma trama que não foi ela quem teceu aprendendo, em função disso, a desenovelar condições de sobrevivência num mundo em que os fusos são movidos pelo homem. Nesse mundo, cada malha revela a natureza de quem a tece e, no vai e vem do tear, cada fiandeira, por sua vez, exibe o formato da própria personalidade oscilando entre caprichosa ou submissa; reta, afirmativa ou dissimulada; rebelde ou medrosa; combativa, atraída pelo confronto como o macho ou maleável e integrada à ordem dominante. As possibilidades são incontáveis e o comportamento da mulher no mundo do homem obedece a um sem-número de nuances, bastando a qualquer um, com olhos para ver, enxergar que, na fêmea da espécie, o amadurecimento para o mundo exterior é mais vagaroso, implicando um período suplementar – uma espécie de estágio – perfeitamente dispensável para o homem porque tudo à volta está disposto à feição e seme­lhança dele, de acordo com necessidades e conveniências postas por ele.

Para a mulher esse deslocamento em direção ao ubíquo sistema masculino – que define, dispõe, normatiza, qualifica – exige, por sua vez, os riscos de um salto rumo ao desconhecido: a extensão do impulso e a habilidade de cair em pé na volta ao solo, sem se ferir, é que vão revelar as aptidões para a sobrevivência de cada uma. Porque há as que saltam ficando quietas; as que, comportando-se como homens, mantêm firme o bastão de mando; as que cedem para chegar ao objetivo; as incautas que se lançam desfiladeiro abaixo esti­lhaçando corpo e identidade no empenho de atender, de forma absoluta, ao intrincado desejo masculino tal Marylins patéticas, atadas a uma dinâmica assimétrica onde qualquer entendimento mais rico entre os sexos, nesses termos, é inviável. Há ainda as espertas, educadas para tirar proveito e as que trocam submissão por intransigência, tendendo a se emaranhar nos fios do próprio isolamento.

No começo dos tempos as coisas parecem ter se feito à sombra do matriarcado. Mas a partir de certo ponto o macho teria tomado o pião na unha com os bons e os maus resultados que se conhece. Dessa ordenação da cultura – transformada em tese ou no axioma a partir do qual a vontade masculina paira impávida – a mulher começou a emergir como antítese há muito pouco tempo, buscando tecer outra sorte de relações na tentativa de encontrar uma síntese diferente, fiada com pontos mais complexos e linhas de melhores cores. Movimentos repetidos, pé tocando o tear, mãos indo e vindo, fios trançados obstinadamente no empenho de superar a insegurança enraizada em séculos de sujeição, a mulher tem questionado a trama das verdades indiscutíveis que a dominação masculina estendeu sobre a história. Vem tentando uma disposição diferente na qual tudo, a começar pela própria lei, possa acolher as necessidades de um espaço compartilhado onde estejam previstos direitos iguais para os dois sexos, assim como abrigada a enorme  extensão de suas diferenças. Vem tentando um bordado que preencha, com capricho, o desenho da complementaridade no qual não prevaleça nem o medo do outro sexo nem a obstinação de negá-lo. Onde, ao contrário, os fios estejam dispostos de maneira a que homens e mulheres possam se encontrar, respeitando-se e tecendo, juntos, a melhor urdidura para a convivência, construindo, a partir daí, uma sociedade que use linhas mais resistentes para alinhavar seu complexo tecido.


COMENTÁRIOS

  • Que belo texto! Esclareceu ‘pontos cegos’ em reflexões sobre o feminino… Assim como a todo tempo, a medida que o lia, não deixava de relacioná-lo com o conto de fadas de Marina Colasanti, A Moça Tecelã… Seu texto, parece ‘alinhar

  • Muito interessante suas considerações sobre essa dificil arte da convivencia entre os sexos.

  • Ana Luisa, que tema mais misterioso você abordou! Admiro sua coragem e a delicadeza com que o tratou. Para mim mesma o tema da mulher foi sempre um mistério meio inabordável. Acho que foi Freud quem disse que uma das coisas mais difíceis é conhecer o que seja o desejo feminino. Veja só. Um beijo da
    Heloisa

  • Dedo bem na ferida, com texto tecido com os fios, finos mas firmes, da alegoria social. Beijos.

  • É verdade, as nossas oscilações entre as diferentes formas de adequar-seo na relação homem/mulher são permanentes… Gostei que chamou a atenção para isso com essa escrita que admiro.

  • mais um belo texto, enriquecendo nossas segundas, obrigada Ana Luisa. Gostei especialmente de pensar “…a extensão do impulso e a habilidade de cair em pé na volta ao solo, sem se ferir, é que vão revelar as aptidões para a sobrevivência de cada uma” embora na minha experiência o fundamental tenha sido, por incapaz de cair de pé sem me ferir, fazer como cantava Paulo Vanzolini: levantar…sacudir a poeira e dar a volta por cima…

  • Oi, prima! Belo texto! A propósito, noventa e nove por cento das personalidades fortes de minha família eram – e ainda são – mulheres. Foram elas que seguraram tranco, sempre. Vai daí que, com a graça dos deuses, aprendi a respeitá-las desde o berço. BeiJoaquim.

  • Muito apropriado para tempos de feministas que esgrimam batom vermelho e machistas que valorizam a beleza, o recato e as prendas domésticas. Como sempre inteligente e bem escrito. Coisa rara.

  • Gostei do texto. Sensível, preciso, verdadeiro.
    Obrigada por me permitir lê-lo.

  • Texto bem urdido, sério, de leitura prazerosa. Uma construção inteligente, passando por cima dos clichês e rejeitando estereótipos.
    Ideal para ser ler como contraponto ao anacrônico e risível “bela,recatada e do lar” de uma decadente revista semanal, que teve como protagonista uma ex-miss.
    Abraços,
    Gilmar de Carvalho

  • Que graça e que triste, Ana Luísa.
    Sabe que sua crônica me remete a “Amor”, da Lispector, em que as Anas se debatem e não conseguem conciliar as duas que nos tomam por dentro? A Ana II, certinha, tece tudo com as próprias mãos (como o mundo quer). No Jardim Botânico do Rio, uma transfiguração, uma epifania: a volta da Ana de antes, libertária, perigosa.
    Vence a segunda: assim ela o quis, assim será. Assim o mundo ainda o quer. Mesmo hoje.


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