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COM AS BONECAS

1 de agosto de 2016

Depois da igreja e acabada a festa, o casal foi para o quarto começar a vida a dois: ele, 26 anos, ela, 14. A história se passou no começo do século XIX, num Brasil que mal deixava a condição de colônia. E lá, trancando a porta, o rapaz percebeu, no ato, que a menina não tinha ideia do que deveria se passar. Com jeito, conversa para cá, risos para lá, chegou na pergunta necessária:

– Sua mãe não explicou a você como é a vida de casada?

– Explicou… Ela disse que, até casar, a mulher obedece ao  pai e à mãe. Depois, precisa obedecer ao marido…

– Sei… Só isso?…

– Foi…

– …

– Bonito esse quarto… E a cama também, toda enfeitada… O senhor não acha?

– Acho…

– Assim mesmo eu preferia ir dormir com as escravas…

– Com as escravas?!…

– É…

– Mas, por quê?

– As minhas bonecas estão todas com elas…

– Sei… E você sente falta das bonecas?…

– Muita…

O rapaz mergulhou por segundos o olho no chão, pensativo. Depois, fixando com afeto a menina, foi capaz do gesto, raro num homem naquele tempo e em qualquer outro.

– O senhor se importa?

– Não me importo não… Vá se isso a deixa feliz…

E a menina correu, contente da vida, para junto das bonecas.

Assim, dia após dia, noite após noite, o marido foi vindo com delicadeza, ganhando a confiança da menina, até conseguir consumar o casamento depois de bom tempo. Tiveram muitos filhos e o rapaz morreu moço, deixando a mulher inconsolável e viúva, para sempre, aos 23 anos.

Anos depois um dos netos, revirando fotografias na gaveta, deu com a imagem dos avós jovens, bonitos: ela, principalmente.

– Mas vovó, porque você não casou de novo? Você era  linda! Não apareceu ninguém para pedir a sua mão de viúva moça e rica?

– Apareceram… Muitos… Mas quem casa com um homem como seu avô não consegue nunca mais achar graça em nenhum outro…


COMENTÁRIOS

  • Uma delicadeza só, do inicio ao fim. Vai ficar na memória.

  • Ah, esta história eu já tinha escutado, por isso mesmo gostei muito de ver como ela ficou por escrito! Ótimo mesmo! Bjs

  • Ana Luisa, que história mais delicada e gentil! E a maneira de contar acompanha o texto na delicadeza e gentileza. Obrigada e um beijo da

    Heloisa

  • Que delicia de história, Ana Luisa!
    Ela estava com a razão. Seria muito difícil aparecer um outro com essa delicadeza.

  • Gosto do estilo. O conto preserva a oralidade típica do relato de um caso.

  • Querida Ana Luísa,

    lindo o texto.
    Fiquei comovido.
    Você fala como poucos da emoção masculina.
    Retrocede no tempo para contestar a
    versão corrente de que todo homem é um estuprador, como afirmam algumas feministas radicais.
    Este texto, curto e denso, aparentemente leve, tem a força de um hai-cai.
    Não poderíamos começar agosto de modo mais auspicioso e poético.
    abraços,
    Gilmar

  • Conto curto, como sabem ser bons textos. Esperei, ao correr da leitura, que o desfecho fosse outro. Gostei, no entanto, com a singeleza do fim. Perfeito para narrador personagem jovem.


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