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E DEUS?…

5 de setembro de 2016

O meu coração
É só de Jesus
A minha alegria
É a santa cruz

A mocinha entoava, contrita, a música de péssima letra e pior melodia, todos os domingos na missa das oito – junto com as primas e as amigas –, antes de seguir para a piscina do clube começando o ritual que apenas teria fim depois da última sessão do cinema Odeon com suas três alternativas: filme de Hollywood, do neorrealismo italiano, ou comédia da Atlântida. Depois era certo varar a noite feliz, vencidas as três etapas habituais do último dia da semana, nas férias em Araraquara.

Vestida de branco
Ela apareceu
Ave, ave, ave, Maria
Ave, ave, ave, Maria

A mãe tinha comprado um véu muito simples para ela receber a comunhão, com um bordado mais discreto do que o bordado do véu das primas e das amigas. Mas ela gostava assim mesmo e era o que bastava, junto à cantoria, rezas e genuflexões, para sentir-se integrada ao ambiente rescendendo a incenso, com os dois coroinhas – turíbulos de lá para cá –, o tilintar dos sinos anunciando a eucaristia mais os adereços vistosos dos oficiantes.

A igreja era feíssima. Arquitetura de traçado pobre abrigando altares com santos e santas de massa colorida, expressões adocicadas, olhos postos no céu, num conjunto do mais perfeito mau gosto. A mocinha tinha exata noção da precariedade sem deixar que nada daquilo, no entanto, atrapalhasse as conversas dela com a ideia que fazia do Criador, da Virgem Maria e do menino Jesus. Conversas compridas de que tirava grande proveito e conforto, num momento da existência em que se via imersa em pecado.

Já o ato da confissão era um tormento, aquela voz sem corpo dentro do confessionário escuro, perfeitamente enfadada, sem interesse nenhum pelo que ouvia e má vontade infinita em relação ao mundo laico, expressa nas perguntas mecânicas à pobre fiel de joelhos, antecedendo o fecho de sempre:

– Procure não pecar mais, minha filha: nem por atos nem por pensamento. Como penitência, reze dez padre nossos e quinze ave-marias. Deus te abençoe – completava a voz, dando sinal para que fosse embora, recebendo, em seguida, outra vítima sobre quem derramaria a mesma estreiteza de valores e de propósitos.

A mocinha saía da confissão invariavelmente arrasada e aquele encontro periódico, colidindo com todas as melhores expectativas que alimentava a respeito de si mesma, era mais funesto que benéfico, revirando-lhe o estômago num mal-estar profundo, agredida, como ficava, pelo comportamento daqueles padres medíocres, alçados, assim mesmo, à condição de guardiães do divino. Mas, sem passar por ali, nada de hóstia consagrada. Então ela enfrentava bravamente o suplício, odiando aquela antecâmera da redenção, indo atrás de uma frequência diferente na qual pudesse elevar, sossegada, o pensamento a Deus e a outros membros da corte celeste sentada à volta dele.

Bendito
Louvado seja
Oo santííssimo
Sacramento

Mas, fé religiosa ou se tem ou não se tem. Não é coisa para qualquer um e nem matéria que se ensine. Só quem consegue reter a presença do sagrado, convivendo com a calidez luminosa exalada por ele, poderá ascender à sensação que escapa à maioria de nós, pobres criaturas para lá de imperfeitas.

Pois com a mocinha não foi diferente.

Apesar da ligação com a avó – católica ardente e culta, leitora de Lacordaire, Bernanos, Simone Weil e Jacques Maritain, avó de quem ouviu, desde pequena, as histórias do Velho e do Novo Testamento habilmente misturadas aos contos de fadas –, a fé da mocinha não resistiu ao impacto do tempo mudando tudo por dentro dela. E a partir de certo ponto, não adiantava nem mesmo se pegar com as orações singelas que a haviam enternecido na infância:

Com Nossa Senhora me deito
Com o Menino Jesus  me levanto
Com a graça de Deus
E do divino Espírito Santo

Não adiantava porque o estrago se abatera fragoroso de forma repentina caindo violento sobre a emoção, esgarçando-a de um golpe só, as extremidades ligadas por poucos fios – frágeis, frágeis –, sem os quais o rompimento, caso viesse, levaria a mocinha a um estado limite, onde razão e desrazão não se distinguiriam mais No intervalo da crise – uma semana? duas? – agonia e fôlego se fundiram na sensação de um naufrágio no espaço, aquele tanto de ar concentrado em cima barrando o caminho até Deus. Quanto mais o buscasse, mais era certo Ele escapar. A mocinha tentava subir sempre mas, em sua infinita impiedade, Ele se afastava, inatingível. Dias e dias, no roldão do esforço, ela se debateu na busca de cada atalho possível, sem resultado nenhum. Até, por fim, entregar os pontos, exausta, desistindo d’Ele que foi embora para nunca mais. Não sem antes deixar claro que, a ela, não tocaria fazer parte do rebanho eleito pela divina escolha. Rebanho apascentado na fé verdadeira, distante da macaqueação universal que só faz explorá-la, contaminando-a com os desvios inerentes às piores formas de prática do poder.

Então, sem Deus e perdida a infância, não restou à mocinha outro remédio senão seguir – asa quebrada – atrás do que pudesse ajudá-la a dar conta do permanente desassossego, companhia fiel que passou, dali em diante, a ir junto com ela a todos os lugares para onde dirigisse o passo.


COMENTÁRIOS

  • Há três semanas quero deixar aqui minha impressão. Faço agora mal terminei de ler o artigo da semana. Criei coragem? Nada disso. Porque também me identifiquei com o texto e o que nele está. É que tive a sorte, desde muito pequeno, de conhecer Deus na essência, sem confissões (imagine!), sem santos esparramados pelos altares, sem canções sem sentido. Deus, em mim. Deus em você. Deus nos outros todos indistintamente. Minha mãe e meu pai agiam assim e nos ensinavam que de nada adiantaria o resto, em especial apreciar o “comportamento daqueles padres medíocres, alçados, assim mesmo, à condição de guardiães do divino”. Não nego que tinha prazer em estar no território ocupado pela igreja do meu bairro. Mais pelo jardim, onde, com companheiros da minha idade, corria livre nas mais diversas brincadeiras que a infância do meu tempo reservava. Este texto me fez um bem enorme. Li e recomendei que, em casa, todos lessem. Agora, quando escrevo, visito seus outros leitores que se atrevem também a escrever e vibro. Quantas experiências semelhantes às apresentadas pelo texto. Poucas semelhantes às minhas. Quantos terão, na minha geração, colocado seus filhos, por experiência pessoal, distantes de padres e freiras, fazendo do terço e do incenso elementos sem quase nenhum significado a não ser no cenário onde importava sua presença por permitir apreciar melhor o espetáculo. Deus, no entanto, por tudo isso, sempre foi de fundamental importância em minha vida. Seu lugar, só dele. Como? Onde? Na lucidez deste texto, por exemplo ou na inteligência de quem o escreve.

  • Cara Ana Luísa,
    Eu, que sou de família católica e estudei em colégio de freiras e de origem agrária, me reconheci plenamente no seu texto.
    Você tem oferecido universalidade às experiências do Brasil tradicional, vividas por muitas gerações, inclusive a minha. Gosto de apreciar essa longa duração reconstruída por você.

  • Realmente,fé se tem ou não. Para uma menina dos anos 50, eu, a fé era algo maravilhoso. Ir à missa das 6 horas, na Santa Cruz, cantar e rezar com a sensação de estar perto de alguêm que tudo podia. Não durou muito. Um dia, ao fazer a confissão não recebi a penitência, mas com horror, vi a portinhola do confessionário se fechar. Chorando, saí da igreja sentindo as labaredas resvalarem por mim. Me perguntava: que pecados horríveis devo cometido para receber tal tratamento. O tempo passou, superei e deixei praticamente de lado a minha fé. Hoje na velhice, às vezes sinto falta dessa bengala.

  • Isinha, fiquei com muita pena da mocinha de asa quebrada, sozinha pela vida…a procurar o incompreensível. Até madre Teresa, em uma de suas cartas, duvidou de sua fé, imagine nós!

  • Quanto desassossego! E quão permanente! E não melhora com a idade, não é?

  • Ana Luisa, seu texto ressoou na minha vida de moça. Mesmas dúvidas, mesmas inquietações. Como não conseguia resolver a questão, decidi deixar como estava, esperando que, no futuro, quem sabe, de alguma maneira o problema se resolvesse. Afastei-me das práticas religiosas, por considerar que as manter não seria certo. Depois de muitos anos, já na casa dos 50, dei-me conta de que tinha passado a vida toda procurando uma solução e que, durante esse tempo todo, Deus estava perto: quando se afastou, foi o momento em que estava mais perto, pois seu afastamento foi um chamado para que eu o procurasse. Veja você o que seu texto evocou em mim! Desculpe ter puxado a brasa para minha sardinha… Um beijo da

    Heloisa

  • Pegando carona no seu texto, ainda acrescento a canção “Queremos Deus, hooooooooomens ingratos, ao Pai supremo ao Redentor. Zombam (falavam zombão, acentuando o “bão”) da fé, os insensaaaaaaaatos, erguem-se em vão contra o Senhor[…]”
    Na “minha” Araraquara, que se chama Ariranha, havia uma beata que espremia as cantorias, numa voz rascante de cantora popular de qualquer parte do mundo.
    Ana Luisa, você que é sábia, pode dizer-me por que as mulheres do povo esticam as vogais nas cantilenas religiosas?
    E dá-lhe procissão!
    Flora

  • Ana Luísa,

    que belo texto sobre a fé.Dá para perceber a importância da culpa no cristianismo. Estudei nove anos com os jesuítas e sei bem do que está falando.
    Sei que esta não é a função da literatura, mas o seu texto presta um grande serviço a todos os desassossegados do mundo.
    Forte abraço do Gilmar


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