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JOÃO RIO VERDE

18 de julho de 2016

O menino brincava na calçada quando viu, do outro lado da praça, em frente à casa dele, quatro soldados a cavalo levando uma escada coberta por um lençol ensanguentado. Em cima da escada – embaixo do lençol – ia estendido o João Rio Verde, jagunço famoso na região: tinha acabado de matar alguém a mando do coronel padrinho dele.

Aconteceu que justo naquela manhã, carregando muita morte nas costas, o infeliz se viu presa de uma emboscada, sendo crivado pelas balas arremetidas dos dois lados de uma estradinha por onde ia fugindo. E o menino se inteirou do assunto bem na hora em que estavam levando o ferido para a prisão – mais morto que vivo – numa cidadezinha de Minas, no ano de 1924. Passado o susto e passada a caravana, percebendo certa movimentação dentro de casa, correu para dentro e viu o pai – médico – sair às pressas depois de arrumar os instrumentos na maleta.

– Onde ele está indo?

– Vai fazer o exame do corpo de delito, disse a mãe.

Guiado pela intuição, chegou perto do sentido daquela resposta. Depois, os adultos comentaram e o menino ouviu que, na cadeia, o pai tinha examinado o jagunço e as muitas chagas cheias com os balaços espalhados pelo corpo dele, tendo declarado às autoridades que o preso não podia ficar ali de jeito nenhum: se ficasse era certo morrer em pouco tempo. Então transferiram o João Rio Verde para a Santa Casa onde o pai assistiu o infeliz, dia a dia, até curá-lo por completo.

Restabelecido, depois de bom estirão, o jagunço ia de volta cumprir a pena na cadeia quando a notícia correu pela cidade pequena, atiçando um grupo raivoso que se ajuntou na porta do prédio para linchá-lo na saída.

Foi quando um magote de gente buscou, apavorado, a casa do menino para avisar o doutor – que havia sido compassivo com João Rio Verde ganhando a confiança dele –, estar formado um bando munido de paus, pedras, rastelos, enxadas e mais instrumentos duros, bem na porta da Santa Casa, exigindo fosse entregue o jagunço para a justiça furiosa deles. Expressão desmanchada – colérica –, olhos soltando chispas, troncos e membros crispados, cada qual em torno da improvisação da própria arma, os homens – porque eram todos homens –, praguejavam ameaçadores, urrando despropósitos para intimidar os funcionários e abrir caminho até o jagunço, dentro da Santa Casa.

Chegando, foi esse o quadro com que deu o pai do menino, depois de sair às pressas de casa, na tentativa de evitar o desastre. O doutor era pequeno, magro, andava sempre muito bem-posto e a fala plácida, as maneiras elegantes e a coragem nunca lhe faltaram pela vida afora, em nenhuma situação. Além do mais, e isso certamente contava, era filho de um coronel destacado na cidade e, naquele tempo, o sentido da hierarquia social se impunha de um jeito como hoje não se impõe mais. Provavelmente, além da origem, tudo na figura dele contribuía para cobrar respeito de uma turba como aquela, composta, em sua maioria, por gente, rude e modesta.

Então, postado com firmeza entre a exaltação e a porta do prédio, foi conversando, convencendo, acalmando até aplacar os ânimos e fazer com que, aos poucos, todos se dispersassem e o jagunço pudesse deixar a Santa Casa e seguir com segurança até a prisão.

Em vista disso pode se dizer que, por duas vezes seguidas, o doutor barrou a morte do João Rio Verde, que cumpriu pena e deve ter deixado a cadeia antes do tempo, beneficiado por bom comportamento. O fato é que, cerca de quatro anos depois, em 1928, estava o menino, – já com 10 anos –, como de hábito mexendo nos livros dele, num cômodo da casa com janela dando para a rua, quando um rapaz, jovem ainda, muito simpático, negro, bem vestido, montado num cavalo arreado com apuro, bateu palmas para se anunciar. O menino atendeu, no que o outro, sempre risonho, cumprimentou:

– Bom dia, mocinho, seu pai está em casa?

– Está…

– Pode chamar? Diz que é o João Rio Verde…

O menino, lembrando do acontecido poucos anos antes, sentiu um calafrio tomá-lo da cabeça aos pés e foi correndo avisar o pai, que saiu para ter com o rapaz.
E mais o menino não soube até muito para frente quando contaram que o João Rio Verde tinha feito um trato com a santa: se sarasse, iria até a igreja dela, longe dali, levar uma fotografia tirada junto com o doutor, pagando promessa no caso de vencer as feridas e o tempo na prisão.

Assim é que, até hoje, essa foto – com certeza suja e desmaiada por causa do tanto de tempo que se passou – deve resistir na parede de algum santuário, mostrando lado a lado o doutor branco, distinto, elegante e seu paciente, negro, jovem e naquela mesma estica com que apareceu ao menino na porta da casa dele, quatro anos depois de ter sido levado – semimorto – para cumprir pena na prisão acanhada de uma cidadezinha do interior.


COMENTÁRIOS

  • História magistralmente contada. Um prazer ler seus textos. Obrigada.

  • Como sempre um texto primoroso.
    Esses contos que escutamos em criança, ficam ao longo da vida. Parabéns!!!!!

  • Ana Luisa a cada conto fico mais fascinada pela sua maneira de contar…as histórias em si são sem dúvida coisa de se maravilhar mas o que faz o conto é o contador…parabéns de novo!

  • Mais um excelente texto para nosso deleite. Parabens, amiga. Fico a espera do proximo. Yvonne

  • Isa, que delícia relembrar essa história que eu ouço desde criança e que você tão lindamente reproduziu!

  • ame: é entrar num brasil que desconheço, a não ser pelas letras. intuo que sejam histórias herdadas, e lindamente reproduzidas. sempre tratando de resgatar dignidade a personagens das assim denominadas margens.

  • Ana Luisa, você tem um repertório enorme de boas histórias! E não só o conteúdo, mas o seu jeito de contar é delicioso. Obrigada e um beijo da

    Heloisa

  • Delícia de relato, Ana Luisa!
    Como é bom começar a segunda-feira e a semana de trabalho lendo os seus textos!
    beijo,
    Marta

  • Gostei muito. Há duas semanas não digo, mas tenho sempre tido o prazer de ler. Mais não digo porque ainda me falta o fôlego necessário para tanto. Deste, no entanto, li com prazer e se silenciasse, por certo, João Rio Verde não me perdoaria.

  • Ana Luísa,

    o texto impressiona pela força e pela surpresa do desfecho.
    A violência se contrapõe à ideia da foto como ex-voto.
    Bonita a possibilidade da trama fugir da expectativa do enredo.
    Gosto quando você nos surpreende e mostra que nem tudo é rígido, determinado pelos deuses, mas que os homens também podem decidir.
    Linda a figura do médico, o herói civilizador que sabia entender a barbárie.
    abraços,
    Gilmar

  • Ana me impressiona seu dominio da escrita e, como sua família, a infinidade dos casos de família que guardam Bj

  • Lindo, lindo, Ana Luisa.
    Roseano no conteúdo, luiseano na forma, esse João Rio Verde nos remete a seu avô e seu pai.
    Estarei enganada?
    Beijins mineirins,
    Flora


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