capa_livrodesign

Livros, Design e Mercado

31 de outubro de 2016

Tempos atrás, um jornalista em busca de reforço para determinada matéria, tentava extrair de seu entrevistado a confirmação da tese segundo a qual as editoras brasileiras vinham oferecendo ao público um livro desnecessariamente caro, cuidado além da conta em seus aspectos gráficos. A crítica dele se voltava, na verdade, para a produção de uma empresa específica que, anos a fio, trouxe ao mercado produtos de excelente qualidade visual, deixando sua marca mesmo depois de extinta, fato infelizmente ocorrido há pouco.

Como acontece nessas entrevistas feitas por telefone, o jornalista estava atrás de uma opinião esquemática sobre o assunto, uma opinião que pudesse confirmar certo ponto de vista, previamente definido, em torno do qual pretendia construir um artigo para o jornal diário em que trabalhava.

Aconteceu, para mal dos pecados do jornalista, ter topado com um entrevistado que, sendo designer, além de editor, tinha enfoque diferente sobre o mesmo assunto, filtrado pela condição de projetista industrial. E para qualquer projetista industrial, formado na boa escola na qual o design é entendido como matéria de relevância, tendo por objetos principais o bem-estar e a informação de homens e mulheres na vida em sociedade, a trajetória dos produtos deve ser avaliada com critério e apenas depois de pesadas as condições em que foram concebidos, fabricados e distribuídos no contexto de seus respectivos mercados.

– Antes de mais nada – reagia o entrevistado, contrariando a expectativa do entrevistador –, talvez se deva evitar juízos severos acerca desse ou daquele setor da indústria, de maneira geral, das editoras de livros, em particular, atribuindo unicamente a elas a responsabilidade por alguns aspectos realmente problemáticos, diga-se de passagem, dos produtos que trazem a público. A indústria de bens não duráveis, nos atendo a ela, dança conforme a música tocada pelo segmento em que atua. Sendo assim, por que os editores brasileiros deveriam ser vistos com desconfiança pelo fato de estar fazendo livros cada vez mais bem editados, projetados e fabricados para o público reduzido com que sempre contaram, por razões que lhes fogem inteiramente à responsabilidade e controle? O que adiantaria fabricar livros baratos em papel poroso, sem nenhuma imagem e com capas desinteressantes? Isso interferiria, por acaso, na tiragem usual dos 3 000 exemplares, número em grande parte responsável pelo preço elevado do livro brasileiro? Aumentaria o contingente do público leitor? Num país onde cerca de 13 milhões  de indivíduos são analfabetos funcionais, onde a leitura nunca chegou a ser hábito e o número de livrarias é irrisório, onde o poder aquisitivo, de maneira geral, vem sendo corroído e programas humorísticos que sempre contaram com grande audiência – anos atrás, pelo rádio, agora pela televisão –, ridicularizam o ensino, o professor, o estudo e a convivência em sala de aula, como exigir dos editores que extirpem, sozinhos, vícios tão arraigados, há tanto tempo? Por isso, não me parecem justas certas críticas ao setor, na medida em que ele reproduz, na sua prática, distorções tradicionalmente presentes na sociedade brasileira. Distorções que se cristalizaram tanto na concentração de capital em poucas mãos, quanto nos obstáculos impostos a um grupo numerosíssimo de brasileiros, impedindo-os de usufruir benefícios indispensáveis à construção da personalidade e da cidadania. Distorções, por outro lado, que acabam condenando nosso produto industrial a tiragens muito menores do que o alcance da tecnologia deslocada para sua fabricação, encarecendo, como já foi dito, a ele e ao processo que lhe dá origem. Livros, no Brasil, sempre foram feitos para a minoria privilegiada dos que conseguem se instruir, desenvolver o hábito da leitura e meios de arcar com ele.

– Mas, voltando à nossa questão – tentou o jornalista, meio contrafeito por não estar tendo eco para seu ponto de vista –, porque editar livros de texto em capa dura?

– Porque a capa dura tem a função de sustentar miolos pesados ou de grandes dimensões, de maneira a evitar que os livros se desconstruam nas mãos dos leitores. Uma brochura pode não ser a melhor solução para um texto muito volumoso ou que precise de manuseio constante e intenso–, rebateu mais uma vez o designer.

– Mas essa razão é técnica –, tentou ainda o jornalista, sentindo que a conversa escapava para uma direção que ele não previra. – Seria a necessidade técnica causa suficiente para a escolha de um processo de fabricação caro?

– E por que não?–, insistiu o designer. É verdade que, em certas ocasiões, o editor quer ou precisa valorizar seu produto com um acabamento mais nobre como a capa dura, por exemplo. Por que uma decisão como essa deveria ser censurada?

– E o papel? – continuou o jornalista, buscando a confirmação de sua tese, agora  noutra frente. – Porque os livros brasileiros têm sido feitos com papel de tanta qualidade?

– Papel, como você sabe, é um dos fatores que mais pesam no preço do livro. Frequentemente é vantajoso comprar uma partida de qualidade superior, própria para impressão de imagens, por exemplo, e usá-la, também, em livros de texto que poderiam estar sendo fabricados com um material de superfície mais áspera e absorvente. É dessas situações em que o caro sai barato, com ganho para o leitor.

– Sei… –, soltou o jornalista pouco convencido, sempre assombrado pela mesma sorte de ideias, querendo, a todo custo, confirmá-las –, e a que outras circunstâncias se devem o alto preço e o excesso de capricho gráfico do livro atualmente fabricado no Brasil? À tecnologia?

– Talvez, se a gente entender tecnologia como o conjunto formado pelas características da mão de obra necessária à execução de um produto, por determinados processos, mais os recursos e limites, próprios desses processos.

– Estou pensando nas máquinas, não em gente… – rebateu o jornalista.

– Eu compreendi–, continuou o designer, arriscando, quem sabe, um tom didático demais para a ocasião –, mas vamos tentar algumas distinções para esclarecer o que me parece deva ser entendido por tecnologia, ainda que de forma simplificada. O maquinário para impressão e acabamento de livros, com o qual se conta hoje nas boas gráficas brasileiras, equivale ao que de melhor se dispõe em qualquer lugar do mundo. Mas, convenhamos, um produto industrial não é resultado, apenas, da ação mecânica e, no caso do livro, a cota de interferência humana é decisiva em todas as etapas: concepção editorial, concepção gráfica e fabricação. Generalizando, nesse processo, costuma se reproduzir no Brasil a mesma ordem de fatores que caracteriza alguns aspectos da dinâmica de nossa sociedade. Ou seja, elites preparadas, aptas a criar com bastante competência, assistidas por um aparato técnico de última geração, ou quase, operado por mão de obra mal paga e apenas razoavelmente treinada. Na minha maneira de ver, mais do que a tecnologia, como um todo, tem sido a ação individual do designer o fator decisivo para o aumento da qualidade do livro brasileiro.

– Do designer?– reagiu o entrevistador.

– É.

– Mas, por quê? – e o jornalista se desapontava mais uma vez, percebendo estar se afastando, e muito, da tese inicial de que as editoras brasileiras estavam tendendo a fazer livros caros. Tese para qual queria, apenas, a aquiescência do entrevistado, não a discussão ponto por ponto de seus argumentos.

E veio a resposta:

– Porque num mercado difícil, estreito, em eterna dificuldade e onde, por conseguinte, a remuneração para quem vive dele é pouca, as editoras brasileiras vêm fazendo um dos mais belos livros do mundo. Tanto de leitura corrente, quanto de referência ou ilustrados. Isso, graças à ação de designers capazes, que se voltaram com empenho e interesse para um segmento que tem sabido se beneficiar de sua expertise, de uns 30 anos para cá. Ao contrário de outros, também integrantes do tecido produtivo brasileiro, que manifestam em relação à atividade, como norma, o mais solene desinteresse, provavelmente por falta de informação acerca de seu potencial. Com a agravante de que, pouco a pouco, o design gráfico passou a ser ensinado e oferecido, em nosso país, como uma espécie de técnica privilegiada de vendas, como um parente sofisticado tanto do marketing quanto da publicidade. Não como o instrumento de projeto e planejamento que realmente é, essencial para a configuração de um mercado forte e competitivo tanto no plano interno quanto externo. Não haverá de ser com técnicas de venda que um mau produto irá se afirmar nem aqui dentro, nem lá fora, você concorda? – perguntou mais uma vez o designer ao jornalista.

– Quer dizer – insistiu o entrevistador, sem responder à pergunta– que, na sua opinião, nos últimos 30 anos a indústria do livro, no Brasil, operou uma mudança qualitativa porque entendeu o papel do design no interior do processo de concepção e fabricação do produto?

– Exatamente. Se mais uma meia dúzia de setores da indústria de bens não duráveis se abrissem para o design, como a indústria do livro se abriu, talvez pudesse ser operada, em pouco tempo e progressivamente, uma transformação estrutural no produto brasileiro, no mercado, na mentalidade de quem o fabrica, distribui e compra, com ganho para todos. Como aconteceu, por exemplo, com a Itália no pós-guerra,  a partir de 1946, e com o Japão, para lembrar apenas dois casos emblemáticos.

– Sei… Então está bem… Muito obrigado pelo tempo que você me cedeu – e o entrevistador se despediu, deixando inconclusa a tese, por absoluta falta de argumentos para sustentá-la.

– Não tem de quê. E por favor, me desculpe. Parece que contrariei sua expectativa: você queria uma coisa e acabei vindo com outra…

– Tudo bem… Já estou acostumado…

…………………………………………………………………………………………

Agradeço aos leitores do blog De tudo um pouco, entre os quais amigos e parentes queridos, mais um bom número de pessoas que se interessaram por ele ao longo deste ano, mesmo não sabendo direito de quem se tratava a autora dos textos nem a que propósito os textos vinham.

Pretendo retomar a publicação semanal das segundas-feiras em torno de março de 2017, quando espero tenha sido possível fechar certas tarefas em curso na Ouro sobre Azul, que manterão a mim e à minha equipe integralmente ocupadas por bom tempo.

De qualquer forma, fica a informação de que o conjunto de pequenas crônicas, publicadas em De tudo um pouco estão sendo editadas para publicação em livro, a ser lançado pela Ouro sobre Azul ainda este ano.

Mais uma vez muito obrigada e estejam seguros de que a resposta dada por vocês aos escritos foi essencial para que conseguíssemos varar um ano difícil para o livro no Brasil, para quem se dedica a ele e tenta viver dele.

Recebam meu abraço afetuoso e até breve / Ana Luisa Escorel


COMENTÁRIOS

  • Realmente Isinha, a indústria devia se render ao design de alta qualidade que temos no Brasil. Pena, todos só têm a perder.
    Quanto aos livros, prefiro os leves e de capa mole pela facilidade no manuseio, mas adoro chegar num consultório e dar de cara com um lindo livro de capa dura, lindas fotos e papel de alta qualidade! Cada macaco no seu galho rsrsrs.

  • Ana Luiza, muito obrigada pelos textos que você tem compartilhado. Estou sentindo falta e torcendo para março chegar logo e voltar a recebê-los. Parabéns pela Ouro sobre Azul, e parabéns pelas suas posições firmes sobre o design, que sempre admirei! Um bom ano para vocês! Beijos, Eliane

  • Gostei desta ultima publicaçao de 2016, especialmente pois o tema me é muito sensível! até março de 2017 e vou procurar o livro De tudo um pouco por aqui nas livrarias.
    abraço

  • Parabéns pelo seu blog tão gostoso,bem escrito e acessível a uma mente não intelectualizada como a minha. Com o texto fiquei ciente do trabalho que é produzir um livro como os que faz a sua editora. Não gosto de livros de capa dura pois na minha idade as mãos acham difícil manipulá-los. Bom trabalho e até a volta.

  • Texto brilhante. De uma relevância impressionante para os nossos tempos, os novos tempos. Um texto motivo para discussão com os colegas, alunos e amigos. Muito obrigado. E aguardo seu retorno por aqui. Beijos.

  • Uma verdadeira aula sobre design e sobre a vida dura de um editor. Realmente as segundas vão ficar sem graça sem os textos do Blog. Mas a promessa de volta deixa uma esperança no ar. Até!!!

  • De fato, o leitor que entra numa livraria, ou compra livro pela internet, nao faz ideia dos bastidores. O mesmo com quadros pendurados em paredes de museus, coisa que aprendi a respeitar! Ana Luisa, um abraço, sentirei falta de sua escrita e reflexões.

  • Gostei, Ana. O design vai muito além da percepção rasa, que também sempre considera o livro muito caro. Mesmo quando custa menos do que uma pizza meia boca. Abr e volte logo.

  • Vou sentir muita falta, mas esperarei pacientemente seu retorno.
    Adoro seu trabalho!
    Muitos beijos Ana Luisa querida

  • Também vou ter síndrome de abstinência.
    Mãe de um designer (que virou homem de teatro, é verdade), que é afilhado de outra, ambos formados na velha e boa ESDI, li seu texto com especial interesse e me sinto inteiramente solidária.
    Beijos.

  • Ana Luisa, querida, seu texto é exemplar e esclarece muito bem quem não está a par da vida das editoras. Muito obrigada por estar incluída no blog. Fico a espera de março próximo! Que você tenha um final de ano muito feliz e que entre bem em 2017. Um abraço da amiga a

    Heloisa

  • Ana Luisa, você fechou com chave de outro esta primeira etapa do blog. Vou sentir falta, assim como todos os seus leitores! Volte logo e bom trabalho! Beijos e até breve, Salete

  • Quatro meses sem o tão ansiado texto das segundas-feiras!
    Tem problema não. Sabemos esperar que A designer do artigo e sua equipe resolvam logo suas dificuldades.
    Para que um livro chegue ao leitor, são necessários mais do que o autor e a editora. Há todo um entremeado de teias que nós, míseros leitores, nem podemos imaginar que existem.
    Beijos e até já,
    Flora Bender

  • A mim, distante fisicamente da elite intelectual escolhida, só me resta agradecer a feliz oportunidade de ter convivido com estes textos de temas tão variados e de leitura tão agradável. A segunda já me punha em prontidão. Nesse sentido, é uma lástima distanciar-me da autora e dos textos. Por outro lado, entendo. Hora da pausa. Fundamental para quem escreve. Não sei se intencional ou não, mas o texto de hoje ajuda – e muito! a entender ainda mais este período de férias prolongado. Até lá!

  • Ana querida, obrigada por nos Ter proporcionado momentos deliciosos. Valeu! Ficamos à espera da nova safra. Entretanto, bom trabalho. Beijinho Yvonne

  • vai deixar muitas saudades. Bom saber que as crônicas serão preservadas em livro. Até março nesse mesmo espaço! beijo

  • Se for para poder ler os textos aqui publicados em um daqueles belíssimos e caprichados livros que você produz, topo a interrupção. Mas fique sabendo que terei uma certa síndrome de abstinência às segundas feiras.

  • Ana Luiza

    Suas respostas foram ótimas,para todos os editores. bjs e parabens

  • Ana querida, como eu tenho orgulho de ter sido sua assistente. Que maravilha de texto em defesa de todo esse nosso esforço. Que possamos criar essa rede de talento e solidariedade, enfrentando tudo que vem por aí. Um grande beijo, Aline

  • Parabéns pelo texto em defesa de sua profissão de formação, pelo ano e pela tenacidade, querida design gráfica e escritora.

  • Ótimo relato-depoimento. Precisamos deste tipo de textos para entender, finalmente, que o livro não é o solitário resultado do autor senão um tecido complexo, no qual o designer é uma peça fundamental.

  • Vou sentir saudades.
    Imaginava que aconteceria alguma coisa quando soube que o Papai Noel chegou, no sábado, a alguns shoppings da cidade.
    Deveria acontecer algo de novo ou
    inusitado. Ficaremos sem o blog até março de 2017. Faremos contagem regressiva, releremos o que foi postado até agora, imaginaremos o que estaria escrendo a Ana Luisa Escorel.
    Logo será março de 2017.Até lá, teremos as postagens reunidas em livro, a presença da Ouro sobre Azul no mercado e o sol que nasce e se põe, todos os dias, anunciando a passagem do
    Tempo, este belo e enigmático orixá africano.Obrigado pela delicadeza com que fomos presenteados durante este tempo. Abraços, até breve, Gilmar

  • Ana Luiza, muito obrigado por ter compartilhado p teu talento e sensibilifade!
    Um abraço.

  • Muito bom seu texto Ana. Já imagino quem foi o (a) designer entrevistado(a)…
    beijos
    kiko


Comente

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*


Ouro sobre Azul | contato@ourosobreazul.com.br | T [55] 21 2286 4874
Rua Benjamim Batista, 153/102 | 22461-120 | Jardim Botânico | Rio de Janeiro - RJ


© Ouro sobre Azul. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Ouro sobre Azul Design