capa_AguaLimpa

NA ÁGUA LIMPA

15 de agosto de 2016

No comecinho do século passado os fazendeiros de Santa Rita de Cássia iam comprar boi no sertão: Triângulo Mineiro, regiões fronteiriças de Goiás e, por vezes, enveredavam Mato Grosso adentro.

A viagem de ida podia ser longa mas não trazia grandes sobressaltos: os tocadores atravessavam os caminhos em cima das bestas, dos cavalos, parando para comer, dormir ao relento e avivar o fogo que iria livrá-los de bicho bravo, todas as noites, durante o sono. Já a volta era bem mais difícil por conta da trabalheira com a boiada: carecia vigilância constante e olho vivo para que nenhuma cabeça extraviasse ou se exaurisse na canseira da caminhada. Acontece que nem sempre os cuidados surtiam efeito. Muito boi tombava no percurso – estendido –, a carcaça servindo como pasto para os urubus sobrevoando, o tempo todo, confiantes de que, a qualquer momento, um bitelo daqueles desabaria sobre os quatro pés. Aí, antes mesmo que a morte trouxesse sossego ao infeliz, começavam a carnificina fisgando, bicos afiados, pedaço por pedaço do que ainda restava de vida na montanha exausta de couro, osso e músculo.

Para aumentar o rendimento do negócio, contornando o desfalque costumeiro na boiada, um coronel teve a iniciativa de adquirir terras entre o sertão e Santa Rita. Que era para o gado dar uma parada, interromper a marcha e só então seguir adiante, desobrigado, por uns tempos, da troca penitente dos cascos, sol a sol, por caminhos de pouco repouso e nenhum sossego. E quando a comitiva chegava a Santa Rita de Cássia, o gado era posto no largo da igreja, em mais um intervalo antes de continuar até a última etapa. Esse rito se repetia sempre, fosse quem fosse o comprador do rebanho. Então, vacas, bois, touros, novilhos e novilhas rolavam de um lado para o outro no chão sem calçamento da praça, levantando um despotismo de poeira vermelha, na tentativa de reproduzir, em espaço acanhado, os movimentos aprendidos na largueza sem fim do sertão. No dia seguinte, já no rumo do destino final, deixavam uma imundice de estrume e terra revolvida pelo atrito dos cascos duros, dando uma trabalheira danada para pôr tudo em ordem de novo, alisar o chão, igualar o solo e recolher a porcaria esquecida para trás.

Quando foi no ano de 1912, o prefeito novo, homem de certo verniz, resolveu acabar com aquele costume. Mandou construir “o corredor” entre os pastos onde estavam fincados os limites urbanos e o bairro da Água Limpa, conjunto de pequenas propriedades pertencentes a sitiantes. Na verdade, o “corredor” não passava de uma estradinha de terra batida limitada por cercas de arame farpado mas, mesmo despretensioso, livrou para sempre Santa Rita do convívio com a boiada, trazida incessantemente do sertão.

Na Água Limpa, justamente, viviam os Pires, conhecidos, ali, como os Pires da Água Limpa. Todos muito claros, aloirados, olhos azuis: era ver os portugueses do Minho de quem na certa descendiam, sem nenhuma outra raça interferindo no trajeto até eles. Hábitos simples, sempre descalços, laboriosos, tinham a infinita ignorância dos caipiras da região, naquele tempo.

Pois um dia, cerca de onze anos depois da construção do “corredor”, um Pires desses bate na porta do jovem médico da cidade, no que é atendido pela mulher dele:

– Bom dia, moça…

– Bom dia…

– Seu marido está?…

– Está… – e foi chamar. – Tem um velhinho descalço, aí fora, querendo falar com você…

O marido sai e fica algum tempo conversando no portão. Quando entra, depois de se despedir, vem radiante e estica com as duas mãos uma nota de cinquenta mil réis na altura dos olhos da mulher: era muito dinheiro e de grande valia para o aperto financeiro deles, casados havia pouco e já com três filhos pequenos.

– Olhe só isso!

– De onde surgiu?!

– Daquele senhor…

– Do velhinho descalço?!!!

– Aquele velhinho descalço é gente da minha família, veio acertar umas consultas e ainda trouxe dois frangos de presente para você! E estendeu os frangos cobertos de penas para a mulher, que todos os dias se deparava com uma história diferente, na cidade pequena onde nenhuma linha de trem jamais chegou e o destino decidiu encravá-la, por bom tempo, moça civilizada que era, nascida e crescida no Rio de Janeiro, sem sombra de costume com o universo rústico daquela beira de sertão.


COMENTÁRIOS

  • História comovente, mais uma vez escrita com sabedoria e delicadeza. E de onde você tirou esse “despotismo de poeira vermelha’? Ou foi criação sua? Achei um barato, pra variar! beijo!

  • Cara Ana Luisa,
    Adorei. Com as suas histórias, você está fazendo uma verdadeira crônica do Brasil tradicional, a partir da experiência do sul de Minas e mesmo de Cássia. A escrita, no entanto, sai da pena de uma narradora talentosa, em consonância com as expressões mais avançadas da literatura contemporânea. Parabéns.

  • Ana Luisa, li o comentário do Gilmar e achei muito a propósito a evocação do nosso Guimarães Rosa. Ao ler seu texto, pensei também no Rosa, especialmente nos contos “O Burrinho Pedres”, em Sagarana (que é uma viagem de boiada), e “Famigerado”, em Primeiras Estórias (que é uma de um médico da roça com um caipira bravo na porta da casa). “Grande Sertão:Veredas” faz, na verdade, 70 anos e não 60.
    No meio dessa nossa vida moderna tão agitada e, frequentemente, inútil, seu texto traz um oásis de paz, em que reina o fundamental da vida, ligada à terra, à natureza, e aos “velhinhos descalços”. Um beijo da

    Heloisa

  • Os bois me emocionaram, mas mais ainda a honestidade dos moradores locais, claros e, o do causo, velhinho.
    Dinheiro sempre chega em boa hora.
    Foi essa gente (e nisso incluo os quatro patas) que fizeram nossa terra, tão viçosa e tão desprestigiada agora, ainda que a festa da Olimpíada tenha sido linda.
    Mesmo morrendo, certamente haveria gado para melhores colocações do que a nossa nas provas. O que nos sobrava de hábito com e da terra nos falta em tradição esportiva.
    Temos muito que aprender com os boiadores e os peões.
    Beijão, lindo texto,
    Flora

  • Lindos os textos que falam nas boiadas.
    Dá para entender a importância desta atividade para a cultura brasileira.
    Também a disseminação do bumba-meu-boi e a grandeza da escrita de Guimarães Rosa.
    Você, Ana Luisa, vai por outra via, a de uma escrita minimalista,
    onde diz muito sem qualquer alarde.
    É um sertão aparentemente menos épico, mas nem por isso menos rico de sutilezas, de sugestões, de sentimentos.
    Curioso um texto tão forte escrito por mãos de vivências urbanas, de outros códigos e outros matizes.
    Fico comovido com sua escrita.
    Este “pequeno sertão”, tão seu é
    tão rico e tão impactante quanto o “grande sertão” do Rosa, que completa 60 anos em 2016.
    A ilustração é a partir de foto da igreja de Santa Rita?
    Fiquei curioso.
    abraços,
    Gilmar


Comente

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*


Ouro sobre Azul | contato@ourosobreazul.com.br | T [55] 21 2286 4874
Rua Benjamim Batista, 153/102 | 22461-120 | Jardim Botânico | Rio de Janeiro - RJ


© Ouro sobre Azul. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Ouro sobre Azul Design