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NAS MALHAS DO PRECONCEITO

11 de abril de 2016

– Dizem que o Brizola tem um rebanho de bois no Uruguai; um rebanho de ovelhas no Rio Grande do Sul e um rebanho de burros no Rio de Janeiro: como é que os cariocas puderam eleger um homem desses duas vezes?!

A troça mais o comentário, lançados em alto e bom som, vararam o ensolarado início da tarde nordestina, num restaurante próximo à praia nos idos de 2001 ecoando, nítidos, pelo ambiente. Na mesa, além do arguto filósofo – natural de Pindamonhangaba, residente em Caçapava como soltara, orgulhoso, num dado momento – almoçava um casal maduro,  bem-posto como o nosso personagem e ambos – marido e mulher – provavelmente membros da mesma família e naturais da mesma região. Os homens, muito loquazes, alheios à presença da mulher a quem não dirigiam, jamais, nem a palavra nem o olhar, empenhavam-se em extrair do maître, pacientemente postado ali perto, informações acerca de um dos candidatos à Presidência da República, na eleição que se daria no ano seguinte: ex-prefeito da cidade que visitavam e um bem-sucedido governador do Estado.

– Me arrependi muito votando no Collor. Não queria repetir o erro – justificava nosso homem ao maître – e, agora, não sei em quem votar na próxima eleição…

Conversa vai, conversa vem, na altura do cafezinho a prosa enveredou para problemas de campanha enfrentados pelo candidato em questão, dadas restrições éticas recém-reveladas pela imprensa local, atingindo, em cheio, o vice da chapa. Incauto e apoiado na familiaridade que vinha desfrutando, o maître ousou:

– Ele bem podia chamar o Brizola para vice… É um nome de alcance nacional…

– Ah! não! – protestou incontinenti o fino piadista –, aí eu não voto nele de jeito nenhum! – reagiu, esquecido de que o ex-governador do Rio integrava a coalizão de forças do dito candidato à Presidência da República, na eleição que se faria em 2002, fato que absolutamente não parecia perturbar-lhe as intenções de voto. Esquecido também, pelo jeito, de que em São Paulo, seu estado de origem, a maior expressão política naquele momento e desde vários anos era Paulo Maluf, político de horizontes limitados, para dizer o mínimo, mero tocador de obras e mais vulnerável a críticas graves de toda sorte do que o outro ex-governador, usado, no entanto, como pretexto para o paulista ofender, de um só lance, o Rio de Janeiro e os cariocas. Infelizmente é assim que tudo se move e a ordem das coisas tem sido apenas uma, desde a alvorada dos tempos: o que eu não sou é sempre, pior do que eu.

Essa convicção, arraigada em cada um de nós, tem como base a lógica terrível do preconceito. Alimentado por um feixe de traços – prepotência, narcisismo, insegurança –, que deveriam se organizar, pelo menos um pouco, passada a fase infantil, o preconceito revela a extrema dificuldade que homens e mulheres parecem ter para construir a personalidade de forma minimamente coesa, harmoniosa e, ao mesmo tempo, descolar-se do próprio eixo em direção ao outro. Sendo assim, o atrito a que estão fadadas a tentativa de afirmação permanente do eu e a necessidade de aceitar o outro em sua diferença deságuam, inexoravelmente, na intolerância. E o andamento tumultuado da história tem confirmado, anos afora, tanto essa contingência quanto a constatação de que não há meio de conseguirmos absorver a diferença como dos mais ricos desafios à inteligência humana já que, para a maioria, acatá-la implica, necessariamente, em uma insuportável derrota narcísica.

Vai daí que, envoltos na bruma espessa em que boia sua pequena fração de consciência, homens e mulheres continuam se movendo aos tropeços, pobres criaturas mal-acabadas, sujeitas aos acidentes de um absoluto despreparo emocional. De tal forma que, inexoravel­mente preso nas malhas do preconceito, eu sempre serei melhor que meu irmão, minha família melhor que a do meu primo e ambas melhores que a do vizinho; minha raça melhor que outra qualquer, minha religião e minhas escolhas políticas também, assim como os imperativos da minha sexualidade – é claro – e os destinos que resolvi dar a ela. Sem deixar de lado meus hábitos e maneira de vestir, a forma como tenho o hábito de me portar em público, o sotaque com que falo a língua de meu país e a região em que nasci ou na qual me radiquei.

Seja ela, São Paulo, Rio de Janeiro, Caçapava ou Pindamonhangaba.


COMENTÁRIOS

  • Não esperei passar a semana para a leitura. Não sei bem o que houve e só hoje me dei conta da excelência deste artigo capaz de ensinar-me ainda mais a respeito de assunto essencial. Tento libertar-me de amarras que me sufocam. Conseguirei? Por sorte, hoje, foi possível ler também os comentários como os do Gilmar de Carvalho e de Heloisa Vilhena de Araújo. Trato de buscar por Santa Teresa de Ávila para ver se me afasto um pouco de mim mesmo. Bom ler você, Ana Luísa em artigo conciso e claro e, depois, navegar entre comentários tão oportunos. Obrigado.

  • Querida Ana Luisa,

    Viajei no sábado (9/04) e voltei hoje à noite (13/04) de Aurora. Fui na companhia de amigos, convidados pelo professor Wellington Jr. (UFC) que pesquisa a Ordem dos Penitentes desta cidade do Cariri cearense (430 km de Fortaleza).
    Estou exausto,depois de oito horas de viagem, mas me revigorei com a leitura do seu texto. Realmente, as verdades absolutas nos prejudicam. E elas reverberam de forma autoritária, fascista. Os penitentes, por exemplo, foram rotulados,durante muito tempo, como fanáticos. Hoje, felizmente, não operacionalizamos mais este conceito. O preconceito foi amenizado (ainda não resolvido) pelas políticas afirmativas e inclusivas dos últimos governos federais.Mas ainda assistimos aos arroubos de machismo, misoginia (contra a Presidente da República, por exemplo), racismo, homofobia. Nada pior que e intolerância. O seu texto desnuda muitas situações que continuamos a enfrentar no cotidiano. Ele (o texto) nos dá ânimo para ver que estamos mais fortalecidos, temos outras formas de lutas e podemos continuar nossa luta insone contra fundamentalismos de toda ordem. Bom olhar para trás, como o anjo de Walter Benjamin, e, a partir daí, elaborarmos nossos projetos de futuro. Forte abraço do Gilmar

  • Ainda estou matutando no” o que eu não sou é sempre pior do que eu ( sou ). Vou pensar mais um pouco pois não creio que você quis ser tão radical mesmo considerando o momento atual. Vou colocar meus dois neurónios para funcionar rsrsr…

  • Realmente o preconceito nos impede de enxergar as coisas com os olhos livres. Uma luta dificil de vencer. Parabéns – mais um texto que nos faz meditar.

  • Pois é. O problema com os preconceitos é que eles muita facilidade de se transformar em certezas inabaláveis. E daí para a violência é um pulinho de pulga.
    BeiJoaquim

  • Ana Luisa, você descreve muito bem a situação de maioria de nós, presos no nosso pequeno ego. Releio Santa Teresa de Ávila, que é uma inspiração para livrarmo-nos desse ego estreito e mesquinho. Obrigada pelo envio.

  • Ana Luísa,
    você, misto de carioca, mineira e paulista,não necessariamente nessa ordem, é a pessoa adequada para falar de preconceitos.
    Isso sem lembrar o tempo em que morou nos Esteites.
    Julgo que, às escâncaras ou pelas costas, já sofreu de intolerância, que permeia sua questionadora crônica.

  • Oi, Ana, tudo bem? Publiquei um trecho do seu texto no FB. Gostei muito das suas palavras novamente. Abr

  • Ótimo, Ana Luisa!
    Tenho curtido muito seus artigos no novo blog.
    Abraços,
    Tito.


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