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O ESCRAVO E O FAZENDEIRO

4 de julho de 2016

Em meados do século XIX um fazendeiro da região de Araraquara veio ao Rio comprar escravo no Valongo. Chegando, seu interesse recaiu num homem soberbo. Alto, fortíssimo, sobressaindo-se dado o porte e já nascido no Brasil: vai daí, sem entraves de comunicação.

O fazendeiro fez o exame detido que antecede qualquer transação de vulto e, naquela, tinha aspectos bem particulares:

– Mostra os dentes, negro! Deixa ver a sola do pé! As mãos! Saúde firme?– e assim por diante, no inquérito dirigido, a um só tempo, ao mercador e à mercadoria.
Finda a avaliação e querendo fechar logo o negócio, foi ao escravo e fez a pergunta de praxe, mera formalidade antecedendo qualquer compra no Valongo:

– Você promete me servir com lealdade?

– Não prometo não senhor.

O fazendeiro levou um susto mas se recompôs e repetiu a pergunta, receando não ter escutado direito:

–  Você promete me servir com lealdade?

No que o outro repicou:

– Não prometo não senhor.

Então, se dando conta de que tinha ouvido muito bem, soltou colérico:

– Escuta aqui, negro, vou perguntar de novo, veja lá como responde! Promete me servir com lealdade?

– Não prometo não senhor.

Então, virando enfurecido para o mercador, que não sabia onde se enfiar, decidiu no ato:

– Levo este aqui!

Pagou, pegou o tal – mãos amarradas – e veio do Rio até Araraquara.

Ele a cavalo, o escravo a pé.

Cerca de 650 mil metros percorridos, sem piedade, em muitíssimos dias.

Ele a cavalo, o escravo a pé.

Quando chegaram o pobre estava esbodegado, mal conseguindo se manter nas pernas.

Então o fazendeiro fez de novo a pergunta antes de entregá-lo ao feitor:

–  E agora, negro? Promete me servir com lealdade?

No que o pobre puxou, valente, do fundo do peito, numa voz esgarçada:

– Não prometo não senhor.

Aí a teimosia bateu no limite das possibilidades daquele homem – nada elásticas nem compassivas, diga-se de passagem, nutridas da prática incessante do mando – e ele ordenou que aplicassem 50 chibatadas no escravo, trancando-o, em seguida, na cafua.

Quando foi no dia seguinte e como não tivesse pregado o olho de tão enquizilado com o acontecido, chamou o feitor para saber do negro.

– Patrão, o negro sumiu…

– Sumiu? Como sumiu?!

– Não sei não senhor, mas sumiu…

– …

– A porta não foi arrombada e nas barras da janela ninguém relou… Estão lá, hoje, como ficaram ontem: inteirinhas… O senhor quer que eu chame o capitão do mato para caçar o infeliz?

O rosto do fazendeiro ficou branco como um céu de inverno. Olhou para o chão fixando bem a cerâmica estendida nele, toda decorada com uns desenhos já esmaecidos. Quando levantou o semblante, era outro homem. Calmo e parecendo conformado:

– Não. Não precisa… Deixa…

Sentou numa cadeira dura e espetada que ficava num dos cantos do terraço, fincou a vista no horizonte por bom intervalo, depois, levantando, aprumou o porte e foi tratar da vida. E nunca mais nem ele nem ninguém teve notícia do paradeiro daquele escravo.


COMENTÁRIOS

  • Escrito com toque de realismo mágico. Pergunto: de quem é a foto no topo da página ? Ao citar Araraquara me deu impressáo da veracidade do texto. Confere?

  • Ana Luísa,

    que página contundente. Tem a força de uma ilustração do Angelo Agostini.
    Surpreendente o desfecho.
    Corrente a reação do escravo.
    Mais uma bela página deste blog imperdível.
    abraços,
    Gilmar

  • Uau, da narrativa oral para a escrita você opera deslocamentos e configura sentidos! Uma lição daquelas!!!!

  • Essa me deixou sem palavras…toda arrepiada…”não prometo não senhor”…

  • Entre pungente e fantástico, este texto abre um novo veio em sua produção literária.
    Parabéns, Ana Luisa!
    Flora Bender

  • Ana Luisa, que estória estranha! O fazendeiro deve ter visto no sumiço do escravo o dedo de Deus – e amansou. Um beijo da

    Heloisa

  • Mais uma linda joia para começar minha segunda feira. Já estou na torcida para ver esses textos publicados numa bela embalagem da Ouro sobre Azul.


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