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O FASTIO DO DIABO / conclusão

23 de maio de 2016

Tendo introduzido o pequeno círculo às deficiências do sistema educacional do país onde atuava como agente desagregador, o diabo mensageiro entrou por considerações mais sofisticadas que exigiam nitidez de raciocínio e exposição, tentando um apanhado abrangente, na verdade bem difícil de montar. Mesmo assim seguiu firme adiante, tendo o cuidado de se manter nas bordas do assunto – mais para complexo –, evitando, com isso, derrapar na própria argumentação:

– Porque o senhor atente, Mestre, para uma circunstância, lá, bem comum nos casos de ascensão social. Seria de se esperar que alguém saindo das camadas populares e alcançando camadas sociais mais elevadas trouxesse consigo os compromissos essenciais com a extração de origem, não lhe parece?

– Isso faria sentido caso a humanidade fosse movida por sentimentos positivos – reagiu prontamente o Demônio, cada vez mais interessado na tal região e no relato, além de seguro do próprio desempenho à frente das forças do mal. – Mas não é assim. Tanto por conta das inclinações atávicas de homens e mulheres, quanto do empenho incessante de nossas brigadas.

– Justo, justo… Acontece que, lá nessa minha zona, a tendência chega ao paroxismo por várias razões. Inclusive por conta da péssima qualidade do ensino, em todos os níveis, que não favorece a formação de cidadãos críticos e sim de multidões amorfas, mais interessadas em fruir bens materiais do que qualquer outra coisa. Nisso, se uma família de imigrantes de origem operária, por exemplo, ascende, em vez de preservar os valores próprios de sua origem encampa, imediatamente, os cacoetes dessa classe dominante cruel nas mãos da qual certamente terá penado no trajeto rumo à ascensão e, que em vez de tratar, por isso mesmo, com reserva, alça maravilhada a modelo, traço por traço, por odiosos que sejam.

O mesmo acontece com os nativos do país. Enquanto circulam nos limites de uma categoria social modesta, têm um determinado comportamento; quando conseguem se descolar dela ingressando noutra, mais elevada, esquecem a solidariedade com a origem e se deslumbram, emborcados nos valores da classe na qual estão chegando, valores que tendem a atuar sobre eles como força corruptora, facilitando enormemente o meu trabalho. Para ilustrar, passo a dois exemplos.

No primeiro, certa senhora muito bem-posta, professora unversitária num país setentrional do mundo rico, origem familiar nas classes populares, atravessa a vida contando, satisfeita, que até o avô e por três séculos ininterruptos, os dela haviam constituído uma linhagem de açougueiros ativa e respeitada.

Quer dizer, nos países do norte, quando forjada no trabalho decente, a ascensão social não implica, necessariamente, escamoteamento da origem modesta.

No segundo exemplo, ocorre o oposto. Nessa minha área de atuação o avô chega como libertário e o neto acaba fascista, tendendo à compra de algum título papal graças ao dinheiro­ recente além de, via de regra, adotar os piores hábitos da tal classe dominante que dá as cartas por lá, desde sempre e, ao longo dos últimos anos, vem mudando a natureza de seus membros mas não os métodos com os quais costuma assegurar vantagens e submeter os menos favorecidos.

– Muito interessante… Muito interessante mesmo… Mas me diga uma coisa –, perguntou o Diabo sempre atento –, você diz ter passado bom tempo observando. Isso quer dizer que, lá, essa maneira de ser dos de cima se forjou e impôs sem interferência sua?

– Pouca, Mestre. Ainda estava me ambientando, por volta de meados do século XVI, quando a escravidão foi adotada como força de trabalho, num ambiente predominantemente agrícola. Então eu apenas incentivava os maus-tratos aos trabalhadores negros, como já tinha feito antes com os indígenas, muito rebeldes e que, logo se viu, não se adaptariam à servidão. Ou seja, de fato não precisei fazer grande esforço porque os vícios de comportamento da classe dominante já vinham arraigados. Mas retive, da experiência em açular os ânimos contra negros e indígenas, ensinamentos preciosos que passei a aplicar de maneira sistemática. Tomando os senhores da terra como referência usei todo meu arsenal de malefícios para ir além deles, incentivando a desigualdade social que vem a ser o grande problema por lá. A partir daí, no tocante aos entraves do acesso das classes populares à educação, mantive certa distância para não me gastar em ações difíceis e cansativas. Com isso, minhas intervenções se faziam não sobre essa carência, mas partindo dela para se concentrar em outras frentes, por assim dizer, derivadas. Porque, sem oportunidades de se educar e de se profissionalizar; menores ainda de conseguir ocupações que lhes permitam um sustento digno, grande parte desse contingente se volta para o crime, que tem se ampliado consideravelmente ameaçando o sossego da classe dominante, para a qual se voltam de preferência as investidas violentas daqueles entre os menos favorecidos que se rendem à sedução do desvio.

– Quadro verdadeiramente diabólico… Mas que lugar…– sussurrou o Demônio, olhos baixos sobre o tapete como se falasse para si apenas.

– Embora seja exagero atribuir esse resultado unicamente a meu trabalho, confesso ter feito certo esforço para poder apresentar um bom desempenho, no dia em que fosse chamado de volta…

– E conseguiu… Mas responda, por favor, para satisfazer uma curiosidade – continuou o Diabo já completamente aplacado dos furores iniciais, seduzido pelo brilho e pela hábil loquacidade de seu agente –, o que significa esse instrumento de percussão de que você não se afasta?

– Ah!, Mestre! Isso me remete a um pedaço do que eles lá têm de melhor: certa música em que o ritmo conta demais e na qual jurei, por tudo que existe de mais satânico, jamais interferir dado meu respeito à qualidade que ela tem… Quando começa, cobre tudo com um véu meio alucinado arrancando a quem quer que seja da mais profunda tristeza… Como eu não tivesse ideia dos serviços que, na volta, estariam reservados para mim, trouxe como lembrança e companhia para os maus momentos…

Ao ouvir a menção a esse antídoto contra a depressão, os três diabões da junta médica se interessaram:

– Funciona mesmo? Com qualquer um? Não importa situação? – perguntou meio sôfrego o maior e mais desenvolto dos três.

– Só não atinge quem for feito de pedra…– respondeu o emissário caprichando na expressão de superioridade.

– Podemos ter uma demonstração?

– Os senhores perdoem, mas não me parece que esse seja o momento adequado. E se permitirem, gostaria de continuar o relato que, aliás, já está quase no fim.

– Continue, ordenou o Demônio.

– Para concluir gostaria de compartilhar com vocês a satisfação de ter conseguido impor, a essa minha área de ação, uma circunstância realmente dramática freando seu destino possível, obrigando-a a caminhar aos solavancos, indo e vindo no tempo em movimentos pendulares de progresso e regresso contínuos, de forma a não permitir que saia do lugar. Ainda assim, ocorreram melhoras pontuais em muitos setores apesar de minhas tentativas em barrá-las. Mas, para usar uma terminologia cara aos intelectuais de lá: “em uma perspectiva histórica”, o movimento é nenhum. O que determinado período faz com uma das mãos, o período seguinte desfaz com a outra. Com isso e talvez graças, em parte, a meus serviços, na falta de um acontecimento inesperado o país, como um todo, está ingressando inapelavelmente na zona sombria dos nossos domínios.

– Curioso… – disse o Diabo com uma expressão sonhadora, quase doce – o que você descreve ilustra bem uma história de que eu gosto muito, inventada pelos gregos há séculos, na qual certo infeliz carrega uma pedra imensa nos ombros até o cume de uma montanha altíssima. Quando chega ao topo, a pedra escapa e ele precisa descer e começar tudo de novo, levando a pedra até em cima, que irá despencar mais uma vez, obrigando a outra descida e outra subida e assim, por toda a eternidade…

– Coitado, reagiu o mensageiro condoído…

Nessa altura, há bom tempo já do início da reunião nos salões do Mestre, o diabinho de recados tinha adormecido feliz da vida na maciez do sofá cor de vinho em que havia se permitido espapaçar. Os três médicos seguiam quietos, atentos a tudo, com certeza se perguntando intimamente quais os recursos a serem providenciados, dali para frente, de modo a manter o Demônio naquele humor positivo. Quanto ao mensageiro, se inquietava não sabendo qual seria a próxima tarefa e, findo o relato, já estava agarrado de novo no instrumento, como se dele dependessem sua alegria e outros estados de espírito igualmente vitais. Foi o Demônio quem falou primeiro, depois de um silêncio longo, dirigindo-se aos diabões…

– Vocês três avisem lá fora que o sistema terá de funcionar, mais uma vez, sem mim. Estou indo com nosso mensageiro visitar a zona de influência dele para conhecer de perto trabalho tão bem-feito e lugar tão suis generis.

– Mas Mestre, o que devemos dizer, exatamente? – perguntou o diabão maior de todos.

– Que estou saindo para uma de minhas viagens à Terra.

Nisso o diabo mensageiro, exultante, não se conteve e soltou:

– O senhor não vai se arrepender! Apesar do meu empenho por todos esses séculos, ainda há muito a fazer para piorar de vez a situação e, na sua companhia, vou ser capaz de atos muito mais eficientes do que os realizados até agora. E tem mais, o país é extremamente colorido! O senhor irá topar com tudo quanto é cor, para todos os lados, o tempo todo!

– Finalmente… – suspirou o Demônio sinceramente aliviado –. E o instrumento? Faça uma demonstração…

– Mestre, já que estamos saindo para lá, sugiro que espere mais um pouco. Vou levá-lo a um lugar em que terá a melhor e mais viva experiência do poder extraordinário do toque conjunto de instrumentos como este. Estou seguro de que não irei decepcioná-lo.

– Onde?

– Naquela cidade que fica embaixo dos braços abertos de uma representação monumental que fizeram d’Ele, talhada no granito.

– Você quer que eu vá a uma cidade protegida por Ele?– soltou o Diabo prestes a encrespar de novo.

– Não se preocupe, Mestre. A cidade é a mais violenta e conturbada de todo o país apesar da estátua pela qual, no fundo, ninguém tem respeito nenhum. Trata-se do lugar onde plantei minha sede e Ele, com estátua e tudo, tem conseguido pouco frente às artimanhas que tenho maquinado. A começar pelo embaralhamento que impuz às religiões que seguiam tranquilas no ritmo tradicional e, até muito recentemente, numa convivência antes harmoniosa. Até quando consegui espalhar dezenas de seitas ditas evangélicas, congregando multidões de fiéis que veem perturbando demais o antigo equilíbrio. Além de terem proposto uma ligação com o vil metal mais forte ainda do que todas as outras religiões, anteriores a elas. E é por esse viés que tenho agido, difundindo nosso milenar culto ao dinheiro, ao qual tudo deve se curvar, de acordo com um dos primeiros ensinamentos de sua cartilha.

– Mas meu caro Senhor das Trevas, retomou o diabão, aproveitando a trégua do mensageiro, respeitoso mas ressabiado, temendo uma possível reação intempestiva – precisamos comunicar ao sistema quanto tempo o senhor ficará fora. Já pensou nisso?

No que o Demônio respondeu com a altivez e a serenidade condizentes com as altas prerrogativas de seu cargo:

– Diga, simplesmente, que desta vez, estou indo sem data para voltar.


COMENTÁRIOS

  • Oi, querida!
    Fechou bem pra caramba! Informou que tenho visto o cara por aqui sob os mais variados disfarces.
    BeiJoaquim

  • Com a coclusão vou juntar as partes e ler tudinho..

  • Genial esse último “capítulo”! Acho que esse texto, de fato, merece uma publicação completa.

  • Ana Luisa, gostei muito do texto todo, tão bem escrito e com tanta ironia. Imagine! Se o Diabo não tem prazo para voltar para o Inferno, é que está bem em casa no Rio… Gostei da ilustração do Gustavo Doré para a “Comédia”. Não estou enganada, não é? obrigada e um beijo da Heloisa.

  • Ler o final no dia de hoje parece coisa acertada com o próprio demo! Ele veio mesmo e para ficar. Fantástica a combinação de realidade e invenção – conjugação perfeita para alcançar o terreno do universal. Adorei a série toda.

  • Deixei para ler os dois últimos textos de uma vez só.
    Adorei, e acho que o diabo mor não vai voltar mais pras profundezas onde vive, vai se deixar envolver pelos tambores, pelo perfume e pelas cores….talvez por alguma coisa que ele ainda não conheça rsrsrsrs, e acabe deixando esse país maravilhoso em paz, procurando e exercendo suas verdadeiras vocações, inspirado naquele senhor tão esquecido do começo da história. E que leve todos os diabos com ele.

  • Perdão, novamente, pela obviedade, mas … Diabólico, Demoníaco. mas acho que São Sebastião vai resolver..

  • Perdão pela obviedade, mas … Diabólico, Demoníaco. Nem São Sebastião resolve..

  • Uau, um mergulho ( sem prazo de volta e sem futuro) numa “zona sombria” , que diz tudo. Por isso nao sei se há acordo (entre “os intelectuais de lá”), quanto a isso: “em perspectiva histórica o movimento é nenhum”. Preciso reler o conjunto. Por enquanto, 10 a zero pra você!!!!! Que fôlego o seu, meu cotovelo arde!

  • Parabéns novamente, querida amiga.
    V. tem com mandar-me a história completa?
    Beijo grande.
    Sebastião

  • hummm…não sei se isso quer dizer que o inferno é aqui ou que nem o Diabo aguenta a tortura monocromática do reino das Trevas…

  • Li todas as partes de uma só vez, Ana Luisa, apenas agora. Encantada aqui com o texto e desolada com aquilo que ele tão bem documenta. Beijos,

  • Maravilhoso desfecho. Só uma ficcionista como Ana Luisa Escorel teria condições de manter a narrativa num crescendo e urdir um desfecho que era esperado, de certa forma, mas nos deixa boquiabertos pela invenção, pela criatividade, e pela surpresa que se instala a nos apontar o dilema que vivemos.
    Parabéns pelo Diabo, pela denúncia do culto ao dinheiro e pela análise alegórica, e em camadas, do Brasil ao longo deste cinco séculos de civilização me barbárie.
    Muito obrigado pelo privilégio da leitura.
    Abraços do Gilmar de Carvalho

  • Ana Luisa,
    a publicação on-line e “em fascículos” (é um paradpxo ou um oximoro?) acabou prejudicando a leitura como um todo. É necessário reler tudo, para emitir comentário consistente acerca de um texto tão denso e bom.
    Farei isso mais tarde.
    Abraço,
    Flora


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