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O fastio do diabo / parte 2

9 de maio de 2016

Por conta das derrotas que o acabrunhavam, uma dentro do Inferno – o vermelho onipresente – outra, fora – a violência estarrecedora da espécie humana com a qual não estava conseguindo competir–, seguia o Diabo mergulhado na mais completa inapetência quando, num dado ponto da eternidade, descumprindo ordens para que não o incomodassem, bateram com insistência por bom tempo na porta dos salões vastíssimos em que ele escondia os infortúnios. E como nada indicasse que fossem desistir, atendeu furioso, soltando, literalmente, fogo pelas ventas.

– Mestre, a junta médica que tem assistido o senhor insiste em vê-lo…

– Mas eu dei instruções expressas para não me incomodarem! Por acaso aconteceu alguma coisa que justifique essa intromissão?

– Os doutores parecem achar que sim… – continuou o pobre diabo mensageiro tremendo de cima a baixo amedrontado com o teor do rompante: passados séculos, não se habituava a ele de jeito nenhum…

Mal o Senhor das Trevas tinha recolhido suas labaredas, três diabões enormes, chifrudos e rabudos, lombos tomados por escamas vermelhas, ásperas, ventres cobertos por um pelame basto, vermelho também – aproveitando, forçaram o vão da porta fazendo-se de avoados, afastaram delicadamente o Diabo – magro, mais para baixo, compleição delicada, sempre rescendendo a água de colonia, elegantíssimo num de seus caftans de brocado rubro guarnecido por rubis e fios de cobre, cascos cuidadosamente aparados, lustrosos de tão limpos – e foram indo aposentos adentro.

– O que é isso? – reagiu o chefe deles todos, aos gritos. – Uma invasão?

– Ora, Mestre, calma, o senhor anda muito desgastado… Viemos com boa notícia…

– Boa notícia? Nesses tempos e nessas profundezas? Inventem outra!

– Mas é verdade…

– Que notícia?

– Um dos nossos acaba de voltar da visita de cerca de cinco séculos a um daqueles países austrais a que o senhor não costuma dar atenção…

– Tal seria! Viveiros de gente inepta! Não conseguem criar nada que instigue nenhuma inteligência minimamente cultivada!

– Pois a questão é essa, Mestre, e se refere ao meio natural e aos habitantes de um dado país, nessa região…

– O senhor poderia se fazer mais claro? – soltou exasperado, bufando alto para o diabão médico que parecia estar à frente da tentativa de lhe mudar o humor.

– Pois não, Mestre… Ocorre que o tal emissário chegou num estado deplorável: chifres caídos, cada qual para um canto, trôpego, exalando um cheiro estranhíssimo próximo do álcool e batendo os cascos no chão movido por uma espécie de tambor que ele toca sem parar em ritmo frenético, fazendo com que todos, à sua passagem – nossos quadros regulares e até as almas penadas –, sejam contaminados pelas batidas, tentando o mesmo sapateado que ele parece dominar perfeitamente mas que é, na verdade, muito difícil para quem não tenha algum treino…

– Sei, e daí? – perguntou o Diabo com grosseria, no auge da irritação.

– Daí que esse emissário, tirante o aspecto desleixado e os hábitos estranhos, parece ter feito lá um bom trabalho e achamos que o senhor ficaria mais animado ouvindo o que ele tem para contar…

– Como, exatamente?– exigiu autoritário, sempre fiel ao compromisso com a precisão, mas já em vias de se desarmar, interessado no assunto.
Percebendo a ligeira mudança de ânimo, mais que depressa um dos outros dois da junta médica saiu e voltou, no ato, trazendo pela mão um diabo magrinho, gesticulação nervosa, agarrado no tal tambor, chifres menos desalinhados, hálito melhor, aspecto passado a limpo e mais apresentável para o encontro.

Depois de uma reverência profunda o serzinho se aprumou emocionado: era a primeira vez que ficava cara a cara com o Demônio!…

– Então, parece que você tem coisa para me contar…

– Mestre, espero, de fato, possa ser do seu interesse o relato dessa minha passagem por região tão suis generis onde, modestamente, cheguei a bom resultado…

– Teve ajuda?

– Lá não há precisão de muita ajuda. A desordem, entre outras condições, favorece demais o malfeito: um de nós apenas, agindo de forma aplicada, consegue dar conta do recado sem problema.

– Explique melhor…

– Espero que consiga entender, Mestre… Pelo fato de nunca ter estado num lugar parecido talvez surjam alguns entraves, mesmo para quem é servido por uma acuidade portentosa, como vem a ser o seu caso…

– Menos rapapé, por favor, e vamos aos fatos.

– Sim, senhor.

E voltando-se momentaneamente para o resto da plateia atrás de um apoio que o Demônio parecia relutante em lhe dar, o emissário das sombras continuou:

– Para que se tenha ideia de como o quadro é intrincado, tentando me situar gastei perto da metade dos 516 anos que me foram postos como limite de intervenção…

– Por que isso?– perguntou de novo o Diabo.

– Vou ver se consigo dar conta de responder à sua pergunta dividindo minha exposição em dois blocos – soltou o emissário voltando de novo a se dirigir, basicamente, ao Senhor dos Abismos. No primeiro, tentarei me deter um pouco nas condições naturais da região, na verdade, um país imenso; no segundo, esboçar, alguns traços da maneira de ser dos que vivem nela.

– Parece bom, didático – reagiu o Diabo mais atento, sentando num dos inúmeros sofás de veludo cor de vinho espalhados pelos salões e pedindo aos demais que fizessem o mesmo, ao emissário recém-chegado, inclusive, até mesmo ao pobre diabinho trêmulo que lhe batera à porta anunciando a visita da junta médica. Porque o Mestre era assim, ciclotímico, inesperado, oscilava da raiva absoluta à mais sedutora das simpatias. Difícil de lidar!…

– Mas, como eu ia dizendo – retomou o emissário das sombras ao país austral, preferindo ficar em pé de frente para a pequena audiência, tambor no chão, junto dele, mostrando segurança, com certeza das razões pelas quais havia sido tão bem- sucedido em sua missão –, trata-se de um lote de terra incomensurável, praticamente um continente, dada a extensão, e tem um solo previlegiado no qual, de alto a baixo, “em se plantando, tudo dá”, conforme eles mesmos costumam dizer. O diabo, opss! perdão, Mestre, é o hábito depois de tanto tempo entre os habitantes daquela região… – estancou sem graça, olhando para o Demônio. Quero dizer, o pro-ble-ma é a maneira como essa dádiva foi e continua sendo tratada porque a terra permanece de uma fertilidade impressionante num clima perfeito. Mas tanto se a maltratou, tanto se queimou a mata, tanto se emporcalhou tudo quanto foi rio, tanto se dizimou campo e floresta, tanto se incomodou o mar, tanto se matou bicho de todas as espécies, tanto se pescou de forma indiscriminada, tanto se cavucou o chão atrás de minério precioso que agora os desequilíbrios são evidentes, muitos deles, irreversíveis.

– Formidável! – exclamou o Diabo já francamente interessado, acomodando-se na ponta do assento, não sem antes ajeitar o lindo caftan de forma a não amássa-lo demais embaixo do próprio entusiasmo. – Isso com intervenção sua?

– Muito pouca, Mestre, muito pouca…

– Sei… – soltou o Diabo, ar pensativo, olhos sem ver nada mergulhados em uma das paredes do salão, já maquinando alguma…

– No princípio, há exatos 516 anos, havia menos gente por lá e a região tinha o estatuto de colônia: veio a ser autônoma muito depois. E embora a conduta, de um modo geral, tenha sido sempre predatória, o estrago não era preocupante se a gente pensar no tanto de natureza que se mantinha, apesar de tudo, em pé. Mas os anos foram passando, a população crescendo,­ multidões de africanos foi trazida para o trabalho escravo, até não servir mais como solução para a lida na lavoura, quando os dirigentes se voltaram para a imigração dando entrada a hordas humanas de todas as origens e etnias. Ou seja, houve um aumento considerável da população inicial que era formada basicamente pelos donos da terra –os índios – e pelo poucos europeus que foram dar naqueles costados.

Voltando ao meio natural, mais diretamente à questão energética, consegui, numa determinada altura, desviar o interesse dos que tocavam o país. Desloquei esse interesse de certas culturas agrícolas – que forneceriam energia limpa e renovável – aproveitando a tendência imperante para degradar a natureza. Fiz com que se voltassem para uma outra fonte energética de produção mais cara e difícil, levando-os a poluir e esburacar a plataforma marítima atrás de uma substância que vai se exaurindo na Terra e começa, inclusive, a ter o preço aviltado no comércio internacional, por conta de interesses que fogem ao controle dessa minha zona de influência. Ou seja, provoquei uma troca fazendo com que, dali para a frente, tudo evoluísse de mal a pior. Fora o fato de que para cuidar de todas as implicações ligadas a essa substância, mantém-se lá uma empresa que chegou a ser das maiores no setor, em escala mundial, onde com êxito e sem esforço plantei uma caprichada cultura da corrupção a ponto de levar essa companhia praticamente ao aniquilamento. E isso, graças à ajuda massiça não apenas de quem a dirigia, como também dos que negociavam com ela. Quando vim de volta aqui para o Inferno deixei instalado um desacerto tal que, hoje, ninguém saberia dizer, em sã consciência, se essa empresa conseguirá sobreviver, apesar da solidez que apresentava até relativamente pouco tempo: era a maior do país e suas ações disputadíssimas na Bolsa de Valores.

Quanto à industrialização, chegou-se tarde a ela, mas chegou-se e, aí, as coisas começaram a encrespar de vez sempre contando, é claro, com minha discreta presença porque, como já disse, nunca precisei usar de muito empenho: a população, lá, é mais para dessorada, circunstância que ajuda bem no rumo do malfeito. De qualquer forma, a partir do momento em que me senti pronto a passar de observador a agente, nada de importante aconteceu sem que eu tivesse posto a mão.

– Interessante… Muito interessante… Mas é curioso… Existe um país setentrional, onde estive inúmeras vezes, diga-se de passagem, que, em linhas gerais, mostra uma composição parecida embora tenha se tornado, apesar disso, uma grande potência… Também foi colônia; também teve escravidão de origem africana mais ou menos no mesmo período; também recebeu quantidades inimagináveis de imigrantes de todos os cantos, mas lá as coisas deram certo…

– É aí, Mestre, que entro no segundo bloco da minha exposição para dar conta dessa diferença que o senhor observa muito bem. Mas, antes de ir a ele, fiquemos mais um pouco na indústria. Como eu ia dizendo, a coisa piorou muito para o ambiente­ natural quando ela chegou porque as precauções devidas, as mesmas normalmente tomadas nos países do norte, de onde elas vinham e de que o Mestre gosta tanto, não foram tomadas na minha zona de influência por algumas razões fáceis de perceber. Em primeiro lugar, como já mencionei, o absoluto descaso com a natureza dando, lá, a falsa impressão de ser indestrutível; depois, o abuso das economias ricas que, a partir de acordos pendentes para os interesses delas, despejam seguidamente procedimentos e materiais condenados em seus países, deixando, na passagem, rastos fundos de contaminação; a irresponsabilidade generali­zada na lida com os processos industriais, sua implantação e rejeitos; por fim, uma falta completa de senso cívico – ou republicano, para seguir o jargão dos políticos que ocupam o poder no momento – a ponto do interesse­ público ser sempre vencido pelo interesse privado em todos os setores e escalões, dos mais altos aos mais modestos. Nesse quadro, faz alguns meses, consegui provocar um acidente de proporções cataclísmicas…

– Como? – perguntou o Demônio excitadíssimo, no que os três diabões da junta médica se entreolharam satisfeitos constatando­ que a estratégia estava dando resultado.


COMENTÁRIOS

  • Ana Luisa,

    teremos uma terceira parte do
    “Fastio”?
    Adorei. Uma construção alegórica que fala muito bem de um País que conhecemos e amamos.
    Maravilhoso embrião de uma novela
    “nada exemplar”.
    Ponto de partida para mais reflexões nesta linha irônica e sofisticada.
    abraços,
    Gilmar

  • Que bom texto esse seu! Para me afastar um pouco desse cheiro de enxofre fui me deliciar no Velho Mundo, com seus museus e vida cultural. Também lá estão querendo fazer o mal. bjs

  • Ana Luisa, já intuíra que tanto vermelho poderia estar indicando certo partido… Estou certa? Espero a continuação! Beijos

    Heloisa

  • Formidável este texto seu, querida amiga. Só não concordo com a palavra “massivo”, galicismo que destoa da sua escrita elegante e corretíssima.
    Também estou muito ansioso pela continuação.

  • Aguardo ansioso pela continuação! E estou começando a intuir que este diabinho exerceu a presidência da câmara.


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