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O FASTIO DO DIABO / PARTE 3

16 de maio de 2016

– Passados mais de 500 anos – continuou o emissário infernal indo adiante na exposição ao Demônio, à junta médica e ao diabinho de recados –, eu já estava afeito­ ao país, ao povo e aos costumes. Tinha, inclusive, alcançado­ a tranquilidade necessária para definir a hora certa de entrar em cena, embara­lhando cada caso num ambiente que, de hábito, se inclina para uma confusa imprecisão. Vai daí, há muito pouco tempo e contando com a ajuda de certo grupo de empresários, ­ representativo desse pouco caso votado à natureza, consegui fazer com que a ne­gligência deles causasse um desequilíbrio ecológico monumental numa área vastíssima: provoquei o rompimento de barreira em um reservatório contendo rejeitos de minérios altamente tóxicos, destruindo uma pequena cidade, expulsando seus habitantes e comprometendo o abastecimento de água em toda a região. Com isso, consegui aniquilar, por quilômetros, as margens florescentes de um rio no qual foram despejados 62 milhões de metros cúbicos dessa lama contaminada, que arrasou a vegetação e a fauna circundantes matando o prório rio, que atende – ou atendia – pelo nome bonito de Rio Doce, com um curso de 853 quilômetros da nascente ao mar, para onde foi carreada essa massa de alumínio, manganês e ferro espraiando-se por cerca de nove quilômetros.

Outra frente rica de trabalho tem sido o incentivo ao uso do agrotóxico nas plantações, de alto a baixo, num país de dimensões verdadeiramente exageradas. Lá, o uso extensivo dos pesticidas vem contaminando solo, frutas, folhas, legumes, raízes e os próprios agricultores, muitos deles inutilizados de maneira irreversível para o trabalho e para a própria vida, graças a um envenenamento progressivo que chega a levá-los à morte. Sem insistir demais, para não passar por contador de rodela, na destruição crescente da maior floresta tropical do mundo, nativa do país, e que também vem sendo alvo de tantas e tais agressões – grande parte com minha intervenção direta – que, em alguns anos, no lugar dela, espero possa se estender um aridíssimo deserto.

O elemento humano, por sua vez também tem pesado no abastardamento do país. Assim como a natureza vem aos poucos sendo aviltada, entra ano, sai ano, coisa equivalente acontece com os homens e as mulheres. Lá, o branco de origem europeia se misturou sem muito problema tanto com o negro africano, quanto com o indígena, que já estava quando os colonizadores chegaram, no mesmo ano de 1500 em que eu cheguei também. Acontece que além desses três grupos, nos quais repousa a mistura original, o país recebeu muitos outros nessa dança da miscigenação e com um resultado único a ponto de se poder afirmar que estão representados, lá, todos os tipos físicos possíveis ao ser humano, na gama do mais claro – cabelo louro, olhos azuis e pele avermelhada –, ao mais retinto dos negros, passando por matizes intermediários quase infinitos. Ou seja, o povo do lugar se adiantou à tendência atual da mescla entre as raças, em curso na Terra, e que, nessa minha área deu-se de forma tranquila, ao contrário, diga-se de passagem, do que acontece nos países setentrionais que o senhor tanto aprecia, Mestre, e para onde costuma ir.

A resistência maior está na absorção do negro e asseguro ter trabalhado­ intensamente para barrá-la. Nas outras frentes, apesar de muito empenho, não consegui grande coisa. Mas no tocante ao negro, provavelmente por ter sido escravo e abandonado à própria sorte logo depois de liberto, emborcando na tendência à desclassificação social por falta de oportunidades decentes de sobrevivência, a situação oferece fraqueza e eu tento explora-la de todas as maneiras, o tempo todo, calcando nos obstáculos que eles vêm enfrentando por todos esses anos. Mas até mesmo no caso deles, o preconceito é menos de origem étnica do que social já que a mistura determinou tipos escuríssimos nas próprias classes dominantes que, por integrarem os estratos da elite, apesar de negros passam perfeitamente por brancos.

– Não! – deixou escapar o Diabo, espantado – mas trata-se de lugar realmente suis generis!

– O senhor ponha suis generis nisso, Mestre! Então, resumindo, não fossem os impedimentos já mencionados e aqueles aos quais passarei agora, tanto a natureza perfeita quanto o elemento humano mesclado de forma harmoniosa dariam a base para a construção de um grande país e de uma cultura muito interessante.

– E você é um excelente expositor – soltou encantado o Demônio interrompendo o emissário que agradeceu com outra grande mesura, vergando-se todo a ponto de quase dar com o nariz no tapete felpudo de um vermelho levemente acobreado.

– Mas me diga uma coisa: qual a sua formação?

– Praticamente nenhuma. Saí daqui muito cedo para assumir meu cargo apenas com a instrução dada a qualquer diabo aprendiz…

– Mas então nosso ensino elementar está de parabéns! Você se exprime com uma clareza, uma fluência notáveis! Não foi à toa que me empenhei tanto em afiar nosso sistema educacional: sabia da importância de uma boa escola para a prática eficiente dos princípios básicos de negação. E você mostra ter capacidade para planejar e a frieza indispensável para o exercício sistemático de ações tramadas nas sombras.

Quanto mais o Diabo se entusiasmava, mais a junta médica se entusiasmava junto, feliz com a metamorfose rápida.

– Obrigado, Mestre… A propósito, o senhor acaba de tocar na causa principal  da fragilidade daquela gente…

– Qual?

– Carência de educação. Os que mandam e decidem nunca tiveram atitude igual à sua. Lá a educação sempre foi relegada ao último estágio das preocupações: tudo, mas tudo mesmo, vem na frente. Resultado, embora a índole seja, de modo geral, boa, a grande maioria dos indivíduos é de uma precariedade mental assustadora. Por isso, nesse setor, nunca precisei mover uma palha: eles marcham para o abismo por conta própria mesmo.

– Que falta de visão…

– É…

– Mas foi sempre assim?

– Sempre, Mestre.

– Existe razão para isso?

– Várias. Mas a que salta à vista é a crueldade das camadas dominantes.

– Crueldade? Mas é o nosso território…

– Neste quesito, lá, os que estão por cima são páreo duro para as brigadas aqui de baixo.

– Sei… – e o Diabo voltou a perder o olhar nas paredes vermelhas, desviando mais uma vez a atenção do relato.

A junta médica exultava. Nem nas melhores previsões teria antecipado efeito tão positivo no humor do chefe. O diabinho de recados, por sua vez, muito à vontade num sofá macio de veludo, exultava também por outras razões, satisfeito com a companhia, o ambiente elegante e por estar sendo recebido como um igual. Cruzava e descruzava as pernas ajeitando seguidamente a cauda; passava com insistência os cascos ásperos e maltratados no braço do sofá para sentir a maciez do veludo, sem disfarçar o exame detalhado para cima dos salões, normalmente inacessíveis a quadros burocráticos modestos, como era o caso dele.

Nosso expositor, continuava à vontade, perfeitamente senhor de si numa espécie de falta de cerimônia trazida dos quinhentos e poucos anos de convivência com os nativos da tal região, onde hierarquia e formalidade nunca foram levadas muito a sério.

– Mas como eu ia dizendo – retomou ele –, se fosse possível juntar o potencial extraordinário daquela natureza ao potencial único do povo tão cordialmente miscigenado, por certo se alcançaria a melhor expressão a que pode chegar um país. Graças em parte a meu empenho isso não tem sido possível e, assim como venho contaminando o solo, o ar e a água, venho, da mesma maneira, agindo sobre os homens e as mulheres de forma a impedir que o país alcance o destino bonito ao qual parecia fadado.


COMENTÁRIOS

  • Supondo não existir pecado do lado debaixo do Equador os que aqui chegaram realmente fizeram o diabo a quatro dando no que deu…parabéns Ana Luisa pelo registro histórico ao mesmo tempo triste e divertidíssimo aguardando a continuação sem perder a esperança de dias melhores…

  • Estava viajando pelo interior do Ceará (Morada Nova) e só hoje tivesse acesso ao texto.
    Está maravilhoso e fico ainda mais curioso pelo desfecho.
    abraços,
    Gilmar

  • Ana Luisa, nosso diabinho aprendiz é um perito em Brasil! Um beijo da

    Heloisa

  • Muito legal prima! Sem falar que se Deus escreve certo por linhas tortas, o diabo escreve torto por linhas certas, sendo muito mais fácil de ler. BeiJoaquim

  • Esmorecer, jamais, Ana Luisa.
    Lembremo-nos de que a esperança deve ser a última a morrer.


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