Capa_Naescola

O PRIMEIRO SOFRIMENTO

19 de agosto de 2016

A menina vivia para cima e para baixo, brincando livre na rua estreita – curta – em que morava com os pais e a avó. Os vizinhos todos sabiam dela, o tempo todo por ali, às vezes sozinha, às vêzes com o amigo fiel de quem, podendo, não desgrudava: um garoto da mesma idade que servia para imprimir encanto às horas, emendar um dia bom no outro.

Se não estivesse pela rua estaria na casa do amigo ou agarrada à saia da avó – sempre na cadeira de balanço do quarto dela –  desenhando, aprendendo a pregar botão e, melhor do que tudo, ouvindo, uma atrás da outra, as histórias que a avó contava como ninguém.

Na casa da menina ia muita visita e ela gostava de ficar escutando as conversas, quieta em algum canto da sala. E sendo na hora do lanche, sempre às quatro da tarde, além do café com leite, pão, manteiga, queijo e geleia habituais, haveria bolo e pãozinho de minuto feito na hora. Nesse ritmo a existência seguia tranquila e a menina gostava bem da existência dela.

Um dia colocou-se a questão de que já estaria muito grande – quatro anos – para ficar solta, zanzando o dia inteiro entre a casa e a rua sem fazer nada. O pai foi meio reticente. A avó, não deu palpite – discreta – mas a mãe afirmou estar mais do que na hora da menina ir para a escola.
Então decidiram o colégio, aprontou-se o uniforme – um avental de quadradinho azul escuro e branco –, a lancheira e lá se foram as duas, a mãe e a menina, para o primeiro dia de aula.

O pátio do recreio era enorme. Frio, escuro como breu, um telhado que não deixava passar réstia de sol, bancos de cimento ao longo das paredes, umas crianças esquisitas parecendo bicho amestrado e a menina rente à mãe não querendo de jeito nenhum largar dela. Aí tocou o sino fazendo um barulho ensurdecedor porque era hora de ir para a classe. Como não tivesse outro jeito, a menina foi se arrastando, coraçãozinho apertado e nó na garganta, até dar numa sala sem graça com a professora dentro, o tempo todo corrigindo o jeito dela desenhar.

Detestou tudo.

No dia seguinte entraram de novo por aquele pátio soturno adentro, e quando tocou o sino ela não foi de jeito nenhum para a fila junto com as outras crianças. Ficou perto da mãe, chorando e pedindo para ir embora. A mãe devia ter alguma coisa para fazer ou então era o jeito dela mesmo, querendo que a menina acostumasse. Mostrou ligeira impaciência dizendo que não podia ficar ali a tarde toda, que a menina precisava ir com as outras crianças porque na escola não tinha lugar para mãe, nem para pai e muito menos para avó. Então a menina foi, a mãe sendo obrigada a levar até a classe. E de novo a mesma coisa: professora de tom duro, expressão fechada, resolvendo o que era para fazer ou deixar de fazer, sem deixar as crianças decidirem nada sozinhas. E a menina detestou tudo de novo, sofrendo muito.

No terceiro dia, na hora de se aprontar para a escola, disse que não queria ir porque lá era triste e ela não podia fazer as coisas do jeito dela, como estava acostumada. Chorou muito não querendo por o aventalzinho nem a lancheira nova, a tiracolo.

Então o pai intercedeu definitivo:

– Deixa ela. Está se vendo que ainda é cedo!

A avó quase morreu de satisfação mas a mãe pareceu meio contrariada, aceitando quieta, mesmo assim, de acordo com o feitio dela.

Então a menina tirou o avental, vestiu o macacão largando a lancheira num canto e, logo depois do almoço, correu atrás do amigo para brincar na rua ou na casa de um deles, como faziam sempre.

Com isso, as primeiras letras só vieram três anos depois numa outra escola, com pátios enormes, ensolarados e professores que não ficavam se metendo nos desenhos dela. E a partir daí a menina foi indo, sempre um pouco atrasada em relação aos da idade, como atrasada ficou por todo o período escolar, pelo menos um ano mais velha que os  colegas e, apesar disso – ou por isso mesmo –, talvez mais feliz e senhora de si do que eles todos. Que provavelmente não haviam transitado desimpedidos até tarde, como ela, pela rua cheia de acontecimentos, encontros improváveis e terrenos baldios povoados por insetos, larvas e plantinhas miúdas, o amigo junto, os dois inventando, sem parar, um faz de conta atrás do outro.


COMENTÁRIOS

  • Quando acabo de ler seus textos fico um tempo pensando nesse dom que você tem de relatar histórias de uma forma tão interessante, tão sensível e tão verdadeira. E fico feliz.

  • Outra história gostosa. Não me identifiquei pois sempre adorei a escola. Completando o seu texto gostei muito do que escreveu José Antônio Carlos David Chagas. Talvez por causa da proximidade da idade e consequentes dificuldades.

  • Ana Luísa, adorei ler sua história. Me trouxe muitas lembranças . Continue escrevendo . Vc têm histórias muito legais

  • Ana Luisa, que mimosa a menininha! Muito pequenininha ainda – 4 anos – para sair tão inopinadamente do Paraíso. Ainda bem que ela reclamou e que os pais a compreenderam e, assim, ela pôde desfrutar um pouco mais do Éden antes de cair no tempo. Teve a possibilidade de fortalecer-se um pouco mais para enfrentar o mundo exterior. Obrigada pelo texto, sensível e gentil como a menininha. Beijos da

    Heloisa

  • cada um com seu cada qual.
    Tive professora particular e estudei em casa junto com minhas irmãs ate os 11 anos. Meus pais queriam nos dar uma formação especial. Fiquei felicíssima no dia em que enfim pude botar uniforme, entrar na fila e ser “igual- à- todo mundo”. Só que nunca fui igual a todo mundo e não houve padronização possível!
    “Viver é perigoso” Ja dizia Guimarães Rosa.

  • Ando atrasado. Não porque queira, mas por conta das dores que me incomodam tanto. Daí que escrever, digitando, devo fazer para o que me dá resultado econômico imediato. Que pena! Porque gosto mesmo é de escrever sobre o que me dá prazer, como enriquecer as segundas-feiras, mal começam, lendo e falando do texto que me envia fazendo ouro sobre o azul. Gostei demais hoje. A danada da personagem, simpática ao meu coração e tão igual a tantas que conheci na infância distante, me pareceu pular do texto para imprimir ainda mais encanto ao meu coração. Espero não parecer piegas diante de tanta ternura que a menina deixou escapar do texto. Até mesmo no desgostar da escola, foi terna. Escola para quê? me pergunto. Tanta coisa boa tem a rua se é possível saber o que encontrar nela. Educadora de renome, em São Paulo, nos anos 70, perseguida pela ditadura, dizia que os meninos da Praça da República, soltos, sem pais e mães por trás deles, não por não tê-los, mas por não poderem ou não saberem como cuidar, tinham mais currículo de vida que todos nós com nosso Curriculum Vitae. Muitas vezes na rua é que dá tudo certo. Obrigado pelo texto que me fez bem enorme. Sem ser engraçado, não é mesmo?

  • Ana Luísa, realmente essa primeira ida pra escola – antes da disseminação da psicologia wntre os pais de nossa geração – nos marcaram muito! Eu me lembro que sai pela janela do carro de meu pai para escaparm lembro de choros e ranger de dentes!!!

  • Ana Luísa,

    torci para ver a menina longe da professora que a corrigia e da escola triste.
    A torcida deu certo.
    Graças à compreensão do pai e da avó e a aceitação da mãe que devia querer se ver livre dela.
    Uma menina destas deve fazer muita pergunta que nos deixa
    enrascados.
    Enfim, li sem perder o fôlego e reli o texto para saber se acabava assim mesmo, tão bem e tão adequado.
    Como escreveu Guimarães Rosa: “estória desigual das outras, danada de diversa”.
    Obrigado mais uma vez.
    Abraços,
    Gilmar
    PS- Também fui à escola com quatro anos, já alfabetizado pela babá. Escapamos das creches.
    Gilmar

  • Ana Luisa:
    seu texto tem a cara do movimento que moradoras de meu bairro, inclusive eu, estão planejando para domingo próximo: “Já pra rua”, ao contrário do já “manjado” “Já pra casa!”
    Assim como a menina da crônica se atrasou na escola (grande coisa) e curtiu o amiguinho e a rua, temos de nos apropriar do espaço público, mesmo com riscos de violências diversas.
    A garotinha foi para a rua e deu no que deu: tudo certo!


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