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O TURRÃO

24 de outubro de 2016

Certa vez, no interior de São Paulo, perto do fim do século XIX, um fazendeiro foi visitar o irmão – fazendeiro também –, que não via tinha tempo.

Ficou uns dias na fazenda, matou a saudade e, na véspera da despedida – os dois sentados à beira da mesa, assentos mais espaldares espetados, duros que só vendo e a chama indecisa do lampião iluminando mal e mal um começo frio de noite –, prosa vai, prosa vem, chegaram na figura do pai:

– Mano…

– Hum…

– Você  lembra daquele jeito do pai apanhar água?

– Lembro…

– Pegava o copo que ele tinha, pendurado numa corrente, baixava no sentido contrário do rio, enchia até a borda e puxava de volta…

– Era… Lá na fazenda e em qualquer viagem…

– Copo de pau…

– Pau?! Não!!! Era de vidro!

– Não!!! Pau! Lembro bem!

– Nada, mano, era vidro!

– Pau!

– Vidro!

– Era pau!

– Era vidro!

E assim ficaram sem conseguir chegar num entendimento até irem para a cama, cada qual com a sua verdade.

No dia seguinte, quando o dono da fazenda acordou, o irmão já tinha pegado a estrada, deixando em cima da mesa, bem à vista, uns versinhos feitos por ele:

Nas teimas ninguém me iguala,
Com qualquer teimoso eu topo,
Não será de vidro o copo,
Enquanto Deus me der fala.
É de pau, e me regala,
Ser nas teimas infinito,
É de pau de que foi feito,
É de pau e sem defeito,
É de pau, inda repito,
É de pau e tenho dito.

E os versinhos passaram de parente em parente, geração em geração, atravessaram o século XX e, graças ao apego a certa cultura que algumas famílias conseguem criar e manter, ainda estão por aqui dando o ar da graça em pleno século XXI. Sempre que alguém insistir demais na teimosia, haverá quem se lembre dos versinhos, ano atrás ano divertindo e confrontando o turrão com os próprios limites, na métrica fácil que serve de base a tanto recitativo em nossa bela língua portuguesa.


COMENTÁRIOS

  • Amei Isa. Adoro histórias de família, e com versos então….
    Genial!

  • tão bem descrita a cena, que eu vi um copo de lata ou de aluminio. E agora??????

  • Ana Luisa, demorei em ler a crônica porque estava viajando. E, ao voltar, encontro esse texto cheio de humor, bem escrito como sempre! Um beijo da

    Heloisa

  • Crônica muito divertida, mas melhor ainda é o sabor local, mesmo sem saber o local (rs). É cena viva que se vê na crônica. Beijos.

  • Esse encontro dos irmãos que já vai tão longe traz ainda hoje um sabor especial e a eterna dúvida: seria o copo de pau ou de vidro??

  • Ausente que só Deus e eu sabemos o porquê, me delicio, agora, com este e os outros escritos que, no tempo, ficaram ainda melhores. Um vestido de Noiva e Palavra Dada, juntos com este, de agora, me encheram o dia que amanheceu emburrado que só. Deste último, entrei de chofre na história tanta parecença com o que vivi num distrito onde minha mãe dava aulas e a vida corria assim, besta como ensina o poeta. De frente com minha casa, a casa dos Scopinho, com poço de água, corda longa, balde na ponta. Quando vinha a água um copo de pau talhado à mão ali, pronto para experimentar o frescor do líquido e a certeza de que vinha limpinho como devia, sem nada que pudesse alterar sabor e cor. Só não tinha teimosia, porque o velho Scopinho determinava e ponto. Não posso deixar de dizer que, lendo, imagino quem teria, revisitando o passado, contado a você estas histórias de um tempo distante para que, agora, com delicada maestria você pudesse recontar? Gostei muito. Desculpe-me o silêncio. Deus conhece o motivo.

  • Boa Ana Luiza! me fez lembrar do Morais Andrade que não perdia oportunidade de soltar esses versinhos pra cima da gente. Vc conhece aquela do “nariz de massa infernal”?

  • que lucidez desse turrão hein? “…me regala,
    Ser nas teimas infinito”. Genial!

  • Ótimo Tão bem escrito e engraçado ; marca de sua família
    E, como encontramos teimosos por esse mundo afora Parabéns

  • Uma melhor do que a outra. Uma delícia que nos espera logo na segunda. Parabéns.

  • Muito engraçado, e como sempre, tão bem escrito. A verdade é de quem tem a última palavra?

  • Querida Ana Luisa,

    Gosto dos teimosos, principalmente quando têm bom humor.
    Os versinhos mostram que a única forma de encerrar a disputa era saindo na madrugada e deixando a última palavra, por escrito.
    Apesar da força da voz, é o escrito que conta aí.
    Amei!
    abraços,
    Gilmar

  • Está muito divertida sua crônica de hoje, Ana Luisa.
    Tenho dito.
    Flora


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