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PALAVRA DADA

17 de outubro de 2016

Pio Lourenço Corrêa, fazendeiro paulista nascido em 1875, era um homem sui generis, capaz de gestos de que não se tem notícia em ninguém a não ser nele mesmo.

Um dia chegou arrasado de uma vistoria rotineira ao São Francisco, fazenda que, havia anos, comprara em Araraquara:

– Uma tristeza! O café está todo brocado! Tivesse eu uma oferta, fosse qual fosse, vendia o São Francisco!

– Eu compro! – disse, no ato, sem pestanejar, o Brandão, amigo fraterno, sobre quem o desabafo fora despejado.

– Está feito!

Acontece que uns dois dias depois, voltando à fazenda, Pio Lourenço constata que não havia broca nenhuma: os cafezais estavam viçosos e perfeitamente saudáveis.
Então entrou em desespero mas, palavra dada, como recuar?

Procurou – ainda para um desabafo mas, agora, por razões diferentes – um casal próximo a quem era muito ligado e relatou o caso, terminando:

– Vendo o São Francisco e meto um tiro na cabeça! – e metia mesmo, sendo quem era.

A senhora, sagaz e opinativa, pôs a mão na cabeça e entrou de rijo no caso:

– Mas seu Pio, por tudo o que é mais sagrado, não leve isso adiante! Converse com o Brandão, desfaça o negócio!

– Dei minha palavra!

– Pois compre ela de volta!

O Brandão era português, alto, vistoso, um farmacêutico que havia surgido em Araraquara numa determinada altura e, como acontecia com frequência com os moços vindos de fora, trouxera com ele hábitos mais civilizados, atraindo uma herdeira local, sobrinha de Pio Lourenço. Casou com ela e, junto, vieram as terras e o dinheiro que o Brandão nunca tivera mas passou a ter e a administrar.

Seguindo o conselho da amiga e parenta próxima, Pio Lourenço procurou então o tal sujeito para desfazer o negócio, pedindo que pusesse preço na palavra empenhada. E o Brandão pôs: exorbitante. Não contente, acrescentou um belo cavalo árabe, do qual Pio gostava muito, e mais um carro esporte para o filho mais velho.

O fazendeiro bateu tudo no ato, reintegrou o São Francisco ao conjunto dos bens, afastou-se para sempre do Brandão e deu um Hupmobile aberto de presente para a parenta, como prova de reconhecimento pela interferência dela, barrando, a tempo, o andamento de uma transação sem pé nem cabeça. Dessas que, de hábito, ocorrem apenas com excêntricos em último grau, caso de Pio Lourenço Corrêa.


COMENTÁRIOS

  • Depois de um ano estafante, de férias em uma praia deserta na Bahia, me delicio com essas histórias que só Ana Luisa pode e sabe contar.

  • Cara Ana Luísa,
    Você está se tornando uma cronista poderosa do Brasil tradicional, mas de um país que preservava, ainda, valores de monta. Os seus relatos ficarão e são um bálsamo nesses tempos regressivos.

  • Essas histórias de época trazem com elas um sabor especial.E você sabe contá-las como ninguém.

  • Mais uma de tio Pio com gosto de quero mais. Ele era realmente sui generis como vc disse.
    Estou curiosa: quem foi a amiga e parente que o incentivou a mudar de idéia?

  • Caramba carambolas!se não fosse você contando eu não acreditaria…mal consigo imaginar uma realidade como essa do Pio…

  • Ana Luisa, como sempre uma boa história de tempos em que a palavra dada valia alguma coisa… Quando entrei no Itamaraty, em tempos em que ainda valia a palavra dada, havia um Secretário-Geral do Ministério, chamado Embaixador Pio Corrêa, muito admirado pela correção. Será que eram parentes? Um beijo da

    Heloisa

  • Você está se tornando (ou já se tornou?) a memória viva da sua família, do Brasil de certa época e região…Seu pai deve estar contente! Bj

  • Na quinta feira dessa semana abri o computador, esquecida que era apenas mais uma 5a comum e rasteira, para ler sua crônica das segundas. Esperei e esperei e já começava a me preocupar com a autora, esquecida de que não era uma segunda. Como na véspera houve um feriado, bateu a confusão. Aliviada quando percebi o equívoco. Isso tudo para você ver o quanto é bom começar as segundas com suas histórias deliciosas e tão bem escritas.

  • Ana Luisa,

    Parece um relato saído de tempos idílicos, de respeito pela palavra dada.
    Mas deve ter acontecido. Estas e muitas outras.
    As pessoas se levavam a sério e levavam a sério os outros.
    Esta diferença é fatal para os tempos que vivemos.
    Estamos na fase do “esqueça o que escrevi”, “assinei, mas não li” e “fumei, mas não traguei”.
    Gostei do relato. Mais ainda do automóvel dado à conterrânea dele que lhe abriu os olhos para a bobagem que seria feita. Um texto que nos faz pensar e inaugura bem a segunda-feira. Abraços,Gilmar


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