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PASSANDO A MANTA

25 de julho de 2016

– 198 mil réis o boi.

– 200 mil réis…

– 198…

– 200…

– Assim não vai dar negócio: 200 é muito…

– É… não vai dar…

Em vista do impasse, os dois homens se despediram depois de bom tempo num corpo a corpo verbal em que ninguém cedeu e acabou não levando a canto nenhum. Deixaram a boiada mastigando – lenta – o capim dos cochos, olhar triste perdido no horizonte. O comprador montou no cavalo e foi de volta para a cidade. O fazendeiro entrou em casa, esperando a noite cair para fechar a tarde que já ia alta.

Quando foi no dia seguinte, 5 da manhã, abrindo a janela do quarto e dando com a paisagem toda branca, num monólogo agoniado o fazendeiro disse para só ele escutar:

– Como essa, nunca vi! E agora? E pasto para esse gado?

Corria o mês de junho no ano de 1918 quando, no sul de Minas e em São Paulo, caiu  uma geada violenta, famosa pela intensidade, guardada com terror na memória dos fazendeiros, anos a fio. Então, reconsiderando, num impulso de autodefesa, o dono da boiada esperou dar 7 horas – horário de abertura do centro telefônico – e chamou o outro que atendeu meio zonzo porque gente de cidade não costuma acordar cedo:

– Bom dia!

– Bom dia…

– Olhe, o senhor sabe, andei pensando melhor e resolvi voltar atrás  na questão do preço para atender à sua necessidade…

–  Podemos, então, ficar nos 198 mil réis?

– Vamos fazer assim: para que seja bom para os dois lados, fechamos em 199 por boi…

– Negócio feito.

Quando um ou dois dias depois o infeliz veio buscar a boiada, que já era dele, confessou sucumbido:

– Caso eu não tivesse empenhado a palavra ia era desfazer o negócio… Acertei antes de ver o castigo da geada campeando lá fora… Era muito de manhãzinha e só fui me inteirar uma ou duas horas depois do acerto…

– Pois é, eu também fiquei contristado, homem de Deus! Abrindo a janela, depois da nossa conversa e dando com o tamanho do estrago, pensei logo no senhor e senti um aperto no meio do peito: boiada tão bonita, preço tão bom e essa, agora: pastos todos secos!…


COMENTÁRIOS

  • Só hoje consegui ler seu texto, Ana Luisa. Ando viajando. E o prazer sempre renovado com os seus textos tão bem escritos. Continua bordando cada palavra. Adoro!

  • Relato mineiro, matreiro, saboroso. Típico do Brasil tradicional.

  • Palavra dada não existe mais. Já o fazendeiro esperto de 1918 existe em cada esquina. Gostei muito de ler.

  • Como a palavra dada era importante para o homem honrado.
    O fazendeiro parecia um homem atual e esperto.
    O texto sempre bem articulado e excelente. Parabéns !

  • Adorei Isinha, como já foi dito, texto curto e seco, mas verdadeiro que só, e bem contado também.
    Dureza que é ser fazendeiro!!!!!

  • gostei de todos os comentários dos seus outros admiradores mas o que mais me encantou neste texto foi a seguinte frase: O fazendeiro entrou em casa, esperando a noite cair para fechar a tarde que já ia alta.

  • Ana Luisa, o esperto foi duas vezes esperto: vendeu e vendeu por preço mais alto do que o originalmente oferecido. Sorte dele que pode contar com o respeito à palavra dada, que vigorava naquele tempo. Tudo contado muito bem com poucas palavras, tecendo rapidamente o desenlace da história. Obrigada e um beijo da

    Heloisa

  • Enxuto. Exato. O mês de junho de 1918, na secura imposta pela geada, pouco ou nada difere do junho e julho de 2016. Estes, também com geada, trazem até um certo encantamento à natureza. O que seca e desventura são outros castigos campeando por toda parte, não só no sul de Minas e em São Paulo. Gostei por demais do texto. Como de costume.

  • Ana Luisa,
    Só o teu belo texto para animar uma pouco uma semana que começa tão cinza quanto aquele dia da geada.

  • o ponto mais interessante que achei no relato foi que, com aparência de inocente, ele mostra as artimanhas delicadas, pois normais, do interesse, que torna irreconhecíveis os ‘homens bons’ de Fernão Lopes, pois se ele acentua “a sanha do poboo”, também mostra a “divisom amtre os grandes” em benefício próprio.
    (hoje estou pernóstica, dormi mal)

  • Ana Luisa,

    um relato que tem uma estrutura de jogo de xadrez. Tempos em que a palavra empenhada valia muito, valia tudo.
    Curioso como em 1918 esta geada marcou sul de Minas e São Paulo.
    Tivemos uma grande seca em 1915.
    Sou levado a crer que o desequilíbrio da natureza antecede e muito a urbanização excessiva, o uso do automóvel em larga escala, a derrubada irresponsável das matas, o aterramento e canalização dos rios e a industrialização pesada.
    Mas a história é bonita e nos leva à importância dos silêncios, do que não foi dito e de uma esperteza que não combina com os códigos de ética vigentes neste tempo.
    Abraços,
    Gilmar

  • Lembrei-me de um conto de Monteiro Lobato, em que, parece que por ocasião desta mesma geada, um fazendeiro de café, de manhã, é surpreendido completamente louco, tentando pintar os pés dos arbustos de verde… Se não me engano, foi o único inverno em que algumas pessoas garantiam ter visto neve caindo em alguns bairros de S. Paulo.


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