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Rubem

18 de janeiro de 2016

Para quem o conheceu na beira dos sessenta fica a imagem do homem de rosto e corpo largos, estatura mediana, cabelos fartos, bigodes bastos: um ursão grisalho. Olhar quase sempre mirando de baixo para cima, ariscos como os dos matutos. Na progressão da conversa passavam a espantados, diferentes das fotografias, em moço. Aí era magro, mais moreno – queimado de sol, talvez –, olhos tendendo a inquisidores. Devem ter ido se espantando com o correr da vida.

A fala – travada, pouco audível, entre fanha e ciciosa – não era a melhor forma de contato:  Rubem parecia estar sempre pedindo desculpas por não poder se passar do aparelho fonador. O som lhe escapava aos solavancos, pedaços de frases que se ligavam uns aos outros pela atenção de quem ouvia, não por mérito seu. Franco, muito franco, frequentemente ranzinza, dava a impressão de estar mais a vontade na escrita que na lida com a inelutável sucessão dos dias. E era de forma brusca que sabia ser gentil, quase empurrando para cima do objeto de seus afetos um presente ou um agrado escondidos dos quais, num dado momento, precisava como que imperiosamente se livrar.

Por bom tempo gostou da convivência em bares onde a conversa solta, o cigarro e a zonzeira da bebida ajudam a atiçar a curiosidade sobre o comportamento alheio. Mas isso ele não punha nas crônicas, limitava à vida. Razão pela qual seu texto continua soberbo oferecendo uma textura transparente como só as manhãs de maio no leste do Brasil. Nele reinam as lembranças de Cachoeiro – Cachoeiro do Itapemirim – onde ficaram avós e tios em suas fazendas; pais e irmãos no casarão protegido pelo cajueiro monumental; vizinhos de maus e bons bofes; a escola; os primeiros escritos e os alumbramentos fundamentais.

Cachoeiro. Diagrama que dá nexo sustentando, até o fim, a visão fresca do cronista. Vem provavelmente de lá o cuidado de frear o comentário mais direto sobre esse ou aquele personagem, dos inúmeros que povoaram as impressões cotidianas com as quais, por volta de seis décadas, registrou as ansiedades de um país sempre crisálida. Deve vir também de Cachoeiro – e da ética estrita da classe média provinciana – a discrição com que dosava as reações sem atingir ninguém, a não ser a si mesmo, com o travo ácido de uma lucidez cortante. No texto de Rubem a observação se inclina para o abstrato. O compromisso não parece repousar no enredo, mas no esforço de compreender a dinâmica na qual se debatem homens e mulheres na massa física de que é feito o mundo.

Mar. Infância. Namoradas. Temas recorrentes repetidos à exaustão. Quase pretextos para justificar o exer­cício de uma escrita impecável onde, com domínio da forma e profundo senso da língua Rubem Braga induz, quem o lê, a achar que escrever  é  fácil.


COMENTÁRIOS

  • Fina percepção de um escritor singular. Obrigada e parabéns pela iniciativa.

  • Parabéns, Ana Luisa, pela iniciativa, pelo texto, e pelo belo trabalho da editora. Se vc. aceitar, vou colaborar aqui e ali com alguma coisa. Abraços de Berlim, Flavio.

  • Ana Luisa, não somente a Ouro Sobre Azul, mas a literatura brasileira está de parabéns por ganhar um blog tão especial.

  • Mais do que saber de Rubem Braga, é bom saber de você, identificar você mesma, na maneira como o descreve. Feliz Ano Novo para você e todos os seus. Parabéns pelo blog e sucesso, sempre, na editora. Com amizade, Antonio Carlos.

  • Ana Luisa, felicito-a pela determinação e firmeza em manter a Editora no seu alto nível de qualidade. Muito poético e sensível seu texto sobre Rubem Braga. Muito obrigada pelo envio.

  • Que delícia de blog, Ana Luisa Escorel! Pesquiso Rubem Braga há mais dez anos e estou lançando, até o fim do ano, meu terceiro livro sobre o autor. Desejo sucesso ao blog e que ele seja leve, poético, tradutor das pequenas epifanias do cotidiano que tanto nos fazem falta nos textos atuais.
    Bjos.

  • Parabéns pela iniciativa, Ana Luisa, que iniciou muito bem. E o que começa bem só pode continuar e durar bem.

    Uma braço.

  • Belo texto sobre Rubem Braga. Digno do homenageado.
    Parabéns pela iniciativa de colocar a
    Ouro Sobre Azul nestas novas mídias!
    Abraços do amigo e leitor (fã) Gilmar de Carvalho

  • Querida Ana Luisa, delícia de texto. Bom começo, adoro o Rubem Braga. Quero sim ler seu blog!
    Beijo e saudade da
    Betty

  • Deliciosa essa apresentação do Rubem. Realmente, ao ler suas crônicas, ainda adolescente, tinha a impressão de que escrever era tão fácil quanto falar. Só com o tempo descobri que não é tão simples escrever bem naturalmente.

  • Que ótima a idéia de um blog, que já começa com um belo texto!!!! Que sorte a dos seus leitores! Obrigadíssima!

  • De tudo um pouco deu o chute inicial fazendo já um gol. Fez um excelente retrato de Rubem Braga. Sempre gostei da escrita dele, um prazer que descobri desde moça.Fico na espera do próximo.

  • Bela iniciativa belo texto deu saudade do ursão grisalho que nos legou tantas crônicas impecáveis. Obrigada Ana Luisa

  • Muitíssimo bom. E bom saber que muitos como eu admiram Rubem Braga com igual prazer na leitura. Fico feliz com a iniciativa e espero seguir recebendo textos desta qualidade.

  • Excelente texto para um belo e verdadeiro perfil. Faltou a assinatura do autor ou autora.

  • Excelente ideia Serei sua assídua leitora
    Com esse inicio belíssimo sobre Rubem Braga já fiquei encantada

  • Parabens Ana Luisa! Num momento de alta conturbação, ler o seu texto me acalmou. Lembrar de Rubem Braga foi uma ideia feliz. Sempre gostei muito de suas crônicas. A Ouro sobre Azul vende algo dele que voce recomende? Estou atras de literatura que me agarre e me acalme! bjo

  • Ana Luísa, seu texto é ótimo ; eu tive o privilégio de conhecer o Rubem pessoalmente e vocé o descreve muito bem. PARABENS pelo seu blog.
    Meu carinhoso abraço. Thereza Miranda

  • É um prazer imenso ver como a dificuldade para manter qualidade começa a ser enfrentada com mais qualidade. Parabéns à editora querida, e um agradecimento muito especial desta que terá às segundas o encontro especial com o puro Ouro sobre Azul!

  • Ótimo texto sobre o patrono do blog. E ótima iniciativa a de abrir esse espaço para falar de literatura com a delicadeza que é sua marca. Abr

  • Ah, como eu gostaria de ter conhecido Rubem Braga de perto. E seu texto me aproxima disso, razão por que lhe agradeço tê-lo escrito e publicado. Duas crônicas, diametralmente opostas em tema e estilo, moram para sempre na minha memória: “Duas meninas e o mar” e “Nascer no Cairo, ser fêmea do cupim”: a primeira, lirismo puro; a segunda, sarcasmo impiedoso contra a burrice oficial. Perfeitas ambas.
    Obrigada de novo.

  • Um delicado como que flagrante fotográfico da alma capaz de driblar o cotidiano com crônicas tão pouco cotidianas, apesar de terem sido essencialmente forjadas nele.


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