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SUL DE MINAS

20 de junho de 2016

A moça ainda não estava afeita aos costumes da região. Nascida e educada no Rio, chegara à Santa Rita de Cássia com o marido, médico em começo de carreira, correndo o ano de 1919. Ali o marido nascera e a família dele se espraiava ocupando, a bem dizer, todas as camadas sociais – das mais modestas às mais elevadas – como normalmente acontecia nos pequenos núcleos urbanos cercados por proprietários rurais e onde as coisas se dispunham todas para assisti-los: o comércio, a igreja, os práticos da saúde, das leis, da construção civil, o pequeno corpo de funcionários públicos e assim por diante.

Nesse ambiente, com menos de um ano na cidadinha e antes que tivesse aprendido a medir o gesto e a palavra, a moça passou por bons apertos até conseguir ajustar a conduta sem abrir mão dos valores mas, também, sem ferir os costumes da sociedade provinciana. Assim certa noite, ainda no começo dessa adequação, saiu para visitar o sogro, na casa pegada à sua, e deu com um encontro dos chefes políticos da cidade tomando por completo a sala de visitas. Sem nenhum constrangimento sentou-se entre eles e foi acompanhando a conversa, iniciativa  que, por si só, gerou grande espanto em homens como aqueles, habituados a pôr e dispor sem nunca considerar a presença das mulheres, a não ser para a procriação e para dar ponto em doce, colher de pau em punho revirando o tacho de cobre.

Numa dada altura um deles soltou bastante inquieto:

– Nós temos que ganhar a eleição no Aterrado de qualquer jeito!

Nossa Senhora das Dores do Aterrado, na fronteira de São Paulo, era um dos quatro distritos do município de Santa Rita de Cássia junto com Divino Espírito Santo da Forquilha, Santa Bárbara do Garimpo das Canoas e Nossa Senhora das Dores da Ponte Alta.

Incomodada, beirando a indignação, ao ouvir as afirmações peremptórias acerca do Aterrado, a moça reagiu sentindo-se, com certeza, protegida pela presença do sogro – figura central em Santa Rita de Cássia – e fiel às próprias convicções democráticas, trazidas da capital da República, naquele momento, e em todo o país, a cidade mais arejada politicamente.

– Mas coronel, a eleição será ganha ou perdida de acordo com a vontade dos eleitores!

– Tem que ser ganha de qualquer jeito! Insistiu o velho incisivo, olhando firme no olho dela.

– Mas… Isso, assim, é crime!…

– Menina, você é muito moça e ainda é nova aqui! Aprenda de uma vez por todas: em eleição o único crime é perder!

E mais não disse voltando às confabulações enquanto à moça, escandalizada, só restou gravar o acontecido na memória passando depois aos filhos que, por sua vez passaram aos filhos deles, que também o retiveram intacto, de modo que a lembrança desse descalabro, tendo aflorado e vindo à tona, pôde reviver, sendo trazida, feliz ou infelizmente de volta, já que aponta para um conjunto de traços até hoje bem presentes na prática política brasileira.


COMENTÁRIOS

  • Não sou mineiro, mas gosto por demais destas histórias que envolvem pedaços desta terra de plácidas colinas. Só hoje pude ler. A vida, por vezes, trata mal a gente. Por sorte, ainda, não cometeu nenhuma maldade maior permitindo, com isso, possa ir ganhando a cada segunda-feira o prazer de começar a semana lendo seus textos.

  • Ana Luisa, desculpe-me não ter escrito antes: houve um problema com o HD do meu computador e estive fora do ar por uma semana. Seu texto evocou muitas lembranças da minha infância, pois minha família é do Sul de Minas: de Campanha, onde passei muitas férias. Imagine: quase 100 anos do acontecido e tudo tão atual! Beijos

    Heloisa

  • Que posso dizer: uma delicia de texto. Imaginei o AC, contando essa história ,dando uma voz especial e um gestual ao coronel .

  • Teu texto é atual e brilhante sempre.
    E o nosso almoço ? Saudade
    Thereza Miranda

  • que bonito seu texto Enxuto, forte
    atual
    Pensei que fosse em Brasília…

  • As práticas eleitorais infelizmente seguem essa velha linha criminosa mas as moças de hoje, ainda fazendo doce e procriando, também fazem muita política, e certamente serão agentes de mudanças positivas não é mesmo? Obrigada por mais esse requintado texto.

  • Santa Rita de Cássia é aqui sem tirar nem por. Mas a sua escrita fascina, cada texto que chega, um presente a abrir.

  • Que bela história! Que bela lembrança de uma moça destemida, que não engoliu o pito e fez dele uma experiência prá ser contada e recontada!

  • Tão provinciano, tão estadual, tão federal e tão universal (creio que a história poderia se passar em muitos outros países).
    Era o que tínhamos para ontem, temos para hoje e, infelizmente, teremos por muito tempo.
    E assim caminha a humanidade…

  • A HISTORIA – que há nesta pequena história – é fundamental para se compreende o presente…

  • Ana Luisa,

    o tacho de cobre das memórias foi bem mexido pela colher de pau da crítica.
    Você acertou o ponto.
    Não apenas mais uma vez.
    Este texto é exemplar.
    Dosa a crônica de costumes com a contundência.
    É duto, mas é doce de se ler.
    Toca na questão da gênese do que vivemos hoje.
    Atualiza o mandonismo e mostra como as coisas se resolviam e ainda se resolvem no Brasil.
    Urge uma reforma política de verdade!
    Amei seu texto.
    É assim, sem chamar a atenção, como a protagonista da postagem, que se escreve de verdade e de coração.
    abraços,
    Gilmar

  • Pelo que sei, a moça era de família monarquista, mas democrática. Quanto às práticas eleitorais, ainda hoje o único crime é perde…


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