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VITÓRIA

27 de junho de 2016

Aos domingos, 10 da manhã, Vitória aparecia para catar feijão na casa do menino. Corria o ano de 1927 e, quase cega, coitada, já não dava mais conta daquilo. Quer dizer, depois de passar por ela, o feijão era visto por outro par de olhos, menos gastos e menos feridos pelo tempo, que retiravam dele as pedrinhas e as impurezas que ela tinha deixado ficar. E a cada vez, em todas as semanas, o menino sentava para conversar na cozinha: era muito curioso e carente da prosa dos mais velhos.

Vitória era uma negra alta, grande e forte, antiga propriedade de seu Joaquim Jacó, fazendeiro cruel, conhecido na região de Passos, Santa Rita de Cássia e Carmo do Rio Claro por maltratar demais os escravos.

Certo dia anunciou estar indo para a cidade com a família assistir à festa do santo: ia ficar lá por algum tempo deixando as jabuticabeiras todas floridas. Era certo as frutas aparecerem a qualquer momento e, mesmo sabendo, de antemão, que não estaria de volta a tempo de aproveitá-las, proibia quem quer que fosse de relar a mão nelas. Queria vê-las todas na volta, as cascas secas grudadas nos troncos, cada qual em seu lugar. E se desse por falta de alguma ou com jabuticaba comida espalhada no chão, os escravos todos iriam para o tronco entrando no chicote. E foi-se embora com a família.

Aconteceu que, as frutas nascendo, só de pirraça, Vitória e as outras escravas da fazenda, instigadas por ela, subiram nos pés se regalando o quanto puderam e, o que não conseguiram comer, derrubaram juntando as duas mãos e escorrendo os braços de alto a baixo, galho por galho deixando todos completamente nus.

Quando o patrão voltou e deu com o acontecido foi logo pegando o rebenque, querendo saber quem tinha feito aquilo. Muito abusada Vitória disse, sem pestanejar, ter sido ela. E no que o senhor ia começar a descer o relho deu um trançapé derrubando, montou em cima do peito imobilizando-o no chão do pomar, pendurou-se na barba comprida dele malhando a cabeça no chão que nem coco maduro um tanto de vezes.

Por causa disso, o castigo não deve ter sido pouco nem pequeno e a pobre, com toda a certeza, comeu o pão que o diabo amassou. De qualquer forma, tudo leva a crer que seu Joaquim Jacó não quis mais aquela fera por perto, decidindo passá-la adiante. No que Vitória acabou comprada pelo avô do menino do qual foi cozinheira por anos a fio, fazendo um feijão do qual se dizia ser inigualável: verdadeiro manjar dos céus.

– Tive dois filhos com seu Joaquim Jacó.

– Ele era seu marido, tia Vitória?

– Não!

– Você era casada com ele?

– Não!

– Mas como então teve filho dele?

– Eu tive dois filhos com seu Joaquim Jacó!

Continuava enfática repetindo sem responder, fosse a pergunta feita duas, 10 ou 20 vezes. Causando, com isso, uma agonia sem fim no menino e pondo nele o que certamente terá sido a primeira grande perplexidade face a um problema sem solução, considerado o contorno de sua lógica infantil.

E assim, em todos aqueles domingos, depois de catar o feijão, Vitória ia ficando, almoçava e, lá pelo meio da tarde, a mãe do menino enchia uma cesta com provisões para a semana, punha na mão do empregado que ia acompanhando Vitória de volta à casinha onde vivia só, num bairro distante – região mais baixa do que os outros –, tendo por nome Buracão.


COMENTÁRIOS

  • Ontem à noite, meus jovens alunos da Universidade Federal do Sul da Bahia, em Porto Seguro, leram e comentaram a dura e rara vitória, levados pela leve poesia que a conduziu, e os conduziu, ao casebre do Buracão.

  • Mais uma vitória,Ana Luisa. Felicitações. Tanto a narrativa quanto a ilustração levaram uma sucessão de emoções a explodir no meu peito. A dolorosa realidade da escravidão e suas infinitas repercussões fica ainda mais viva com detalhes como estes com que você aqui nos brinda.

  • A noite já chegou e o texto da Vitória bateu fundo dentro do peito. Magistralmente bem escrito.

  • Ana Luisa, você pinta, com poucas pinceladas, a destruição que a escravidão produz nas relações humanas. O que teria que ser amor – “tive dois filhos” – é, na verdade, uma relação de dominação brutal, o que afeta, ao que me parece, mais o escravizador – o Joaquim Jacó, que não se sabe que fim levou – do que a escravizada – a Vitória, que mantém, apesar de tudo, sua dignidade. Muito lindo e conciso o texto. Um beijo da

    Heloisa

  • Ana Luisa,

    você consegue fazer um relato poético, mesmo com um ponto de partida cruel e perverso.
    Não é que doure pílulas.
    É que se coloca, ágil e cúmplice,em vários lugares e nos dá uma narrativa fragmentada e única, com vários pontos de vista. O resultado é perturbador e rico. Vitória não poderia ter um nome mais representativo. Muitos descendentes dos africanos atualizamos esta capacidade de romper com o discurso da Casa Grande e instalar uma nova lógica, que desmonta o preconceito, tão arraigado, ainda hoje.
    Parabéns pelo texto e obrigado pela escrita tão sensível.
    abraços,
    Gilmar

  • Suas crônicas, Ana Luisa, passaram a ser minha rotina para começar bem a semana. Gostei, também, da jabuticaba e seu cabo como uma bomba para a pobre Vitória.

  • Quanta verdade nesta crônica! Quanta história fazendo enredo! Gostei demais.

  • Da oralidade para a fina escrita a história de Vitória – não à toa tinha esse nome – ensina a todos um pouco das complexas relações sociais desse Brasil, cujo presente está impregnado do passado. Ficamos no aguardo de segunda-feira que vem, para mais um momento de esperança no gênero humano, que parece estar esquecendo como usar as palavras com poesia

  • Que linda, Ana Luisa. Adoro estas prendas inesperadas. Loyola as vezes tb me brinda com algumas cronicas. Beijo, Yvonne


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