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E a vida continua
E A VIDA CONTINUA
a trajetória profissional de Wilson Figueiredo
Moacyr Andrade e Wilson Figueiredo

18x27.6 cm | capa dura | ilustrado | 220 páginas | 2011 |
Rio de Janeiro | ISBN 978 85 88777 47 7 |
R$ 85,00

ESGOTADO

Do Espírito Santo para Minas a diferença, além dos mineiros, é o mar a que eles têm acesso por intermédio dos capixabas. Rubem Braga considerava o capixaba o mineiro do litoral. Os mineiros gostariam mais que Guaraparí constasse do mapa de Minas.
Já me acostumei com a discreta decepção que provoco quando, para deixar tudo claro, digo que não nasci em Minas, apesar de ter tudo mais para ser mineiro. Ou mesmo receber tal consideração como prêmio de resignação. Valho-me dos verbos sempre no condicional.

Nasci em Castelo e fui batizado, já taludo, em Belo Horizonte. Por sinal, na igreja de São José, no centro propriamente dito da capital mineira. Meu pai era nascido em Olinda e minha mãe, em Alvinópolis. E eu fui a exceção exclusiva entre todos os irmãos. Mãe mineira, Quaresma pelo lado materno e Turrer pelo lado paterno, austríaco pelo movediço mapa europeu no século 19. Sou o neto mais velho de Anselmo Carlo Turrer. Pai pernambucano, puxado a republicano histórico, sempre inclinado ao discurso nacionalista e à ênfase florianista. À cabeceira da mesa de jantar antes de anoitecer, onde quer que morássemos. Em Minas, bem entendido.

Recomeçando. Mário Augusto Figueiredo, por extenso. O médico, sempre referido por onde passava como doutor Mário, criado e formado no Rio na turma de 1916 (a faculdade ainda com endereço na rua Santa Luzia), internou-se por aquele Brasil essencialmente rural para clinicar montado em cavalos cinematográficos aos olhos infantis. Do Espírito Santo foi para Minas, mas não sei o suficiente para contar. E ficou pelo resto da vida. Comecei a aprender geografia por ouvir falar de Aimorés, Mutum, Manhuaçu, Manhumirim, Caratinga, Ponte Nova, Rio Casca, minhas mais antigas referências. Já adulto, ordenei as lembranças em sequência com os fatos nacionais a partir da Revolução de 1930. Um Brasil que chegava ao consumo da eletricidade e à água corrente nas casas, população de 30 milhões e 80% de analfabetos. A primeira República aproximava-se do fim. E as outras viriam em sequência.

Do primeiro casamento de meu pai, tive cinco irmãos, nascidos no Rio: Helena e Maria Helena, Paulo, César (que morreu aos l6 anos) e Rubens. Do segundo, em Minas, fui o primogênito, e meu irmão Carlos já nasceu em Raul Soares, de onde em fotografias com a Kodak (de caixote), até hoje perfeitas em preto e branco, guardo as primeiras lembranças.

Minha irmã Magda e meu irmão Mário nasceram depois. Não saíram de Minas nem para experimentar. Em Divinópolis, ela. Ele, em Montes Claros, onde conheci um mercado regional típico, chuvas com três anos de atraso e a lenda de dona Tiburtina, no casarão no largo da Matriz, com cajueiros debruçados sobre o muro com frutos vermelhos e amarelos para o lado de fora. Ela, já viúva e lendária, e Darcy Ribeiro ainda pelos doze anos, já sacando por conta da fama que o acompanharia e sobrevive a ambos.

Meu pai exercia a medicina e a política com devoção pública. Teve jornais locais, no estilo municipal ainda em vigor. Deixou a política pela exclusividade profissional a que o compeliu a nomeação para a Saúde Pública, em 1926, em Minas. Da Zona da Mata, Raul Soares ficou para trás quando nos mudamos para Divinópolis. As fotos na versão caixote da Kodak atestam com exatidão a época. Meu pai se apresentou (republicanamente, claro) e foi mandato para a frente de combate entre paulistas e mineiros na Revolução Constitucionalista, por um lado, e dita oficialmente separatista, do lado oficial. Em 1932. Trouxe um capacete de aço e guardou a farda até morrer.

Recomeço pela via ferroviária (com o nome de dona Leopoldina, em tardia homenagem republicana), de Raul Soares para Divinópolis, aonde chegamos pela Oeste de Minas. Para Montes Claros, já foi pela Central do Brasil. E, dois anos depois, Belo Horizonte. Para encerrar os anos de 1930, Uberaba, onde seria apresentado ao futebol e à adolescência em 1937. Aí descarrilei, não nos trilhos da Estrada de Ferro Oeste de Minas, mas nas matérias do quarto ano (quando o curso ginasial era de cinco).

Fui parar no colégio interno em Orlândia, de onde voltei outro e dois anos mais velho. Refiz no biênio paulista o equivalente aos cinco de ginásio à época, e aprendi a responsabilidade com o sabor da liberdade ensinada no Liceu Municipal de Orlândia.

Em 1943, fui cheio de literatura começar a vida adulta em Belo Horizonte (cursar medicina e alegrar meu pai). Mas esta é outra história. Troquei a medicina pelas línguas e letras neolatinas, num caso de amor à primeira vista e oportunismo juvenil. E me tornei arauto da repetição de ano letivo, que me ressarciu em dois anos de tudo que malbaratara em quatro. E me considerei, modéstia à parte, um bom exemplo de que uma boa bomba pode ser investimento pedagógico com retorno confiável.

Não é minha culpa se não nasci em Minas. Imperdoável é nunca ter enfrentado o medo de ir a Castelo acertar as contas por lá, não ter voltado durante uma vida inteira, pelas razões que a minha razão desconhece. Percebo em capixabas que, ao saberem do meu infortúnio de mineiro do litoral, fazem - mas me poupam de - um severo juízo.

De mim para comigo, como se dizia antigamente, repito que mineiros ilustres já se valem, cada vez mais, da definição atribuída a San Thiago Dantas, que rompeu o constrangimento e enriqueceu o privilégio de ser mineiro graças à criação da categoria dos mineiros nascidos fora de Minas. A começar por ele próprio.

 Oficialmente, Minas não reconhece, mas bem podia criar a Ordem dos Mineiros não nascidos na terra mineira, embora vinculados a Minas pelas características imperceptíveis, como pronúncia, interjeições, nostalgia rural ou laços de famílias, de acordo com critérios igualmente locais de avaliar e atestar a mineiridade em seu mais amplo alcance. Inclusive, ou principalmente, político.
 




IMPRENSA

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ÍNDICE

TEXTOS WILSON FIGUEIREDO
Ser ou não ser
Chamava-se Dona Angelita
Uma lição de música
Close-up de uma segunda-feira
As cartas de Mário de Andrade
Um monumento invisível
Entrevista com Altivo de Andrade
La Violetera
À sombra da História
O juízo final das gavetas de um escritor
Movimentos simulados de um autor
Sobre JK
Vidas bem vividas
Álbuns de família
História de prefácios
Castelinho em moldura mineira
Retrato de um autor quando jovem
Aparecido e a arte de negociar divergências
Afonso Arinos, o jornalista
O eterno Senado
Impeachment de Collor
O espetáculo não pode parar / Diretas-Já
O dom de decifrar o momento político
Palestra sobre Otto Lara Resende

TEXTO MAGDA LUCIA RODRIGUES
História que Manuel Alves Nardi me contou

TEXTOS MÁRIO DE ANDRADE
Trecho de carta a Otto Lara Resende
Carta a Wilson Figueiredo

TEXTOS PAULO MENDES CAMPOS
Carta a Wilson Figueiredo
Trecho em "Retrato de um autor quando jovem"

TEXTO NELSON RODRIGUES
À sombra das chuteiras imortais