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AMAR, VERBO INTRANSITIVO?

13 de junho de 2016

O nome de um dos encontros entre escritores, na Flip de 2015 – Amar, verbo transitivo –, lançava uma espécie de desafio ao contradizer o título do romance de Mário de Andrade, do qual se originou – Amar, verbo intransitivo–, publicado em  1927.  Porque, como sabemos, intransitivo é o verbo que não se conjuga, que se basta a si próprio, cujo predicado está nele mesmo sugerindo uma espécie de condição impessoal e indiscutível no relacionamento com as palavras que estão a volta dele, na frase. Qual razão terá levado Mário a escolhê-lo foge à compreensão imediata, pois nada mais pessoal e discutível do que o sentimento amoroso. E quanto ao verbo, propriamente dito, ele é tão plástico que talvez se devesse fixar, para todo o sempre, a seguinte forma de conjuga-lo:

Eu amo do meu jeito
Tu amas do teu
Ele ama do jeito dele
Nós amamos do nosso
Vós amais do vosso
Eles amam do jeito deles

Cada um de nós tem a sua maneira de amar que é única e intransferível, fruto da cultura em que fomos criados – no âmbito restrito e no âmbito público – e das experiências acrescentadas a ela, ao longo da existência. Daí a dificuldade do entendimento amoroso e os desencontros quase atávicos provocados por ele: variando a trama em que está tecida uma dada cultura, varia também o conceito de amor definido por ela que se torna, assim, infinitamente vário. E talvez seja justamente por conta desta fluidez que tanta barbaridade costuma ser cometida em nome do amor. Porque nos terrenos em que ele impera, cada um de nós terá sempre a sua razão que não dependerá das normas definidas pela sociedade nos campos da ética e da lei, assim como, no plano individual, tenderá, da mesma forma,  a não depender do respeito ao próximo nem do bom senso.


COMENTÁRIOS

  • Quem vai saber o que Mário queria dizer…
    Talvez pra ele amar fosse um verbo intransitivo mesmo, sem um nome para citar.

  • Isa, não sei se lembra desta frase, acho que é Stendhal : “O amor é um poço do qual se pode beber somente tanto quanto se colocou dentro, e as estrelas que nele brilham são apenas seus olhos que para ele se voltam”. Essa definição que adoro faz de amar verbo intransitivo, ou não?

  • Gostei do texto e do tema escolhido. amar é verbo intransitivo? eudesenvolveria mais.

  • Ana Luisa, muito verdadeiro o que você diz com tanta propriedade. São João diz que “Deus é amor” e nós vamos por caminhos tortuosos à sua procura e nos perdemos. Um beijo da

    Heloisa

  • O que eu mais gostei: a conjugação do verbo. Você está cada dia melhor.

  • A pergunta que não cala: será que o amor em Mário era transitivo ou intransitivo? Como todo bom romance, ele atravessa as décadas com mais perguntas do que respostas, tão bem formuladas, e como sempre, tão bem escritas pela Ana Luisa. Parabéns, adoro tb a narrativa curta! e se precisarem explicar o que é um verbo intransitivo, a explicação é perfeita.

  • Ana Luisa,

    gostei muito do texto. Quando se escreve bem e quando se tem o que dizer, como é o seu caso, até
    gracinhas e paródias de feiras literárias elitistas servem como
    ponto de partida para reflexões
    densas e poéticas. Obrigado pela leitura no dia de Santo Antonio.
    abraços,
    Gilmar

  • Um texto muito saboroso, crõnica poética, com reflexões prático-teóricas (rs).

  • Um texto tão bem escrito e descrito que iluminou esse inicio de noite de segunda feira.

  • Delicioso! Que modo original de escrever sobre o amor, no dia de Santo Antonio além do mais! Para mim, que tenho a mania de escrever sobre o amor – intercultural – foi como receber um grande dom ao descobrir algo tão diferente. Vou citar muito!

  • Alia sua fina escrita com sofisticada reflexão. Curto e profundo como um texto de boa filosofia. Ou poesia.

  • Muito bom. Bom mesmo. Pena não ter tido em mãos, nos tempos em que ensinei, texto como este para ajudar meus alunos de ensino médio e pré-vestibulandos a aproveitar mais de AMAR, VERBO INTRANSITIVO. Mário teve bem suas razões para dar nome à obra. Era terrível o poeta que era “trezentos, trezentos e cinquenta, já que suas reações nasciam de si mesmas, sem repouso”. Gostei muito, Ana Luísa, e, de forma intransitiva, penso que isto basta.


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