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O ESCRITOR

26 de setembro de 2016

Via de regra o escritor se desliga de tudo para ir atrás de seus temas com algum sossego. Assim, passa horas isolado, longe da pulsação que agita os dias e as noites – homens e mulheres se debatendo neles – e, num aparente contrassenso, busca dar corpo às intuições a partir da experiência ganha observando, bem ou mal, justamente esse frenesi do qual foge com todas as forças.

Por instrumentos: as palavras. Entidades esquivas em monocórdica disposição horizontal – uma atrás da outra simulando certa disciplina –, é nelas que o escritor se perde na busca da sonoridade mais bonita, do ritmo preciso e do melhor sentido. O  desafio é desentranhar da absoluta abstração, inerente à escrita ficcional, alguma coisa parecida com uns pedaços do universo – átomos –, na forma de impressões dotadas de certa ordem interna, contendo um pouco de tudo.

Quanto aos assuntos, podem até se oferecer à imaginação com alguma facilidade mas o complicado não é chegar neles, mas sim ir acertando a forma de tratá-los no cuidado com a composição das frases e com o encadeamento dos períodos para poder atendê-los na medida certa. Porque, à diferença do músico, o escritor não possui nada parecido com um metrônomo que possa revelar a ele a cadência do texto. Precisa trazer o metrônomo para dentro de si e afiar o ouvido tentando descobrir o tempo mais adequado, sílaba por sílaba, palavra por palavra, frase por frase, perío­do por período. Isso, quando a intenção for um certo domínio do texto, porque há escritores que se importam menos com ele preferindo se deter no assunto. Então ficam caçando situações inverossímeis e temas extraordinários indo atrás de aprovação por conta – quem sabe? –  do inesperado. Ou tentando estruturas narrativas complicadíssimas, num desprezo evidente pelas vias mais simples testadas por tantas histórias que conseguiram bater bem no leitor, sem exigir que se esforçasse além do necessário para mergulhar nelas.

Agora, ao tipo de artista comprometido com questões como fluência, ritmo e sonoridade caberá domar seu meio com bota e espora, tornando claro que, ali, o campo das decisões é só dele. Por isso não poderá aceitar que os caprichos da língua escrita, veículo difícil e fugidio, se interponham entre a ideia e sua materialização. Como campeiro em potro bravo sustentando corcoveio precisará mostrar que nenhum imprevisto sonoro, nenhuma vizinhança malsoante entre o fim de uma palavra e o começo de outra irá fugir-lhe ao ouvido atento, desviando-o da meta de servir o tema com a melhor forma a seu alcance, na lida permanente e obsessiva com a inarredável imprecisão das palavras.


COMENTÁRIOS

  • Nossa, Isa, incrível a descrição do que é mexer com esse veículo difícil e fugidio…

  • Adorei! Encontrar o “mot juste” é o maior terror quando enfrentamos a página em branco. Alguns têm o dom… E o belo texto não poderia ter sido melhor ilustrado do que com o Graciliano. Aliás, se “desligar de tudo” nos dias de hoje é mais um desafio para a escrita.

  • Ana Luisa, Aristóteles (na “Retórica” ou na “Poética”, não me lembro bem em qual) diz que o principal para quem escreve (ou discursa) é “metamorfosear bem”: encontrar a metáfora justa. Creio que esta do “campeiro em potro bravo” é uma dessas metáforas justas, em que você resume, num traço, o ofício do escritor. Um beijo da

    Heloisa

  • Ana Luisa:
    parabéns! Você se reinventa a cada semana. Este texto metalinguístico está um primor,
    Flora Bender

  • Me serviu sobre maneira sua reflexão: ” “caberá domar seu meio com bota e espora, tornando claro que ali, o campo das decisões é só dele.” Obrigada
    Inês R.

  • É fácil. Basta domar o potro selvagem e atravessar um desfiladeiro repleto de virgulas, acentos, pleonasmos e cacófatos mal intencionados.

  • …”caberá domar o seu meio com bota e espora, tornando claro que ali, o campo das decisões é só dele”.
    Muito bom.
    Obrigada
    Inês R.

  • Que precisão! Nós, escritores, sabemos que o tema pode ser banal, mas o que importa é a forma de narrar, como atingir o leitor. E para isso, é a busca incessante pela palavra adequada, o ritmo, como você aponta tão bem. Como diz minha querida amiga Marta, ” um desespero prazeroso”. Que delicia de texto!

  • Que lúcida reflexão sobre este ofício de domar as palavras!
    Fluente, para ser lido de um só fôlego.
    Pessoal e universal, ao mesmo tempo.É sua e de todos os escritores que merecem este nome.
    Gostei muito.
    Abraços,
    Gilmar

  • Mesmo que a gente seja escritor vicário, a maior parte do tempo escrevendo sobre escritos alheios, todos nos confrontamos com a “inarredável imprecisão das palavras”. Um desespero prazeroso, se você me permite o paradoxo.
    É muito bom começar a semana lendo o que você escreve. Muito obrigada por me incluir na sua lista de destinatários.

  • Identificação total. Parece que te pedi que escrevesse esse texto para ser lido nessa fresca manhã de nício de primavera!

  • Quanto gostei deste texto! Quanto fui para dentro dele aprendendo com ele, sentindo, buscando. Quanto sofro com a “inarredável imprecisão das palavras” sempre que saio em busca da palavra mágica, esta, que anda perdida na sombra de um livro raro. Difícil encontrar. Enfim… Este texto me agradou muitíssimo e sou grato por ter estado comigo nesta manhã, eu que ando meio desaforado e nada tenho escrito dos anteriores que também me serviram como luva e me agradaram muitíssimo. É que a vida, sabe, a vida, nem sempre permite fazer o que agrada.


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