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O FASTIO DO DIABO / PARTE 1

2 de maio de 2016

O Diabo andava muito desmotivado imerso num vermelho eterno, num excesso monocromático que não estimulava em nada as inquietações mentais dele. O tempo todo tudo igual, nenhum pontinho à volta que não fosse vermelho sangue, vermelho escuro, vermelho puxado para cor de abóbora, para o azinhavrado, para roxo ou grená; vermelho alguns pontos acima do cor-de-rosa ou abaixo do marrom, mas sempre correndo no trilho de um matiz apenas. Na verdade essa tinha sido uma das condições impostas por Ele – Ele sempre Ele!, esbravejava o Diabo num destempero mudo em meio ao tédio – quando fecharam as negociações acerca da área de influência de cada um. Agora, passados milênios, o acordo não estava mais funcionan­do porque o marasmo cromático prejudicava demais a imaginação, a inteligência e um tanto de iniciativas a cargo das potências subterrâneas.Vai daí, o impulso infernal para a prática das inumeráveis categorias de malefícios tendia a ficar cada vez mais aguado. Como, diabos, não se dera conta, na ocasião, deixando passar o sentido sibilino da cláusula!, vociferava sozinho, isolado de tudo no encontro silencioso com ele mesmo, sendo levado, muito a contragosto, a admitir certa superioridade do campo adversário, Ele à frente. Porque no ato da assinatura dera mais atenção a outros pontos e se armara de tal maneira contra a eventualidade de ser passado para trás em inúmeras outras questões, polvilhadas com extrema perícia ao longo da redação, que acabou não percebendo, infelizmente, o poder acabrunhante do vermelho ininterrupto. Jogada de Mestre! Empregar uma tática assim, suave, gradativa, discretamente dissolvida no fluir dos milênios para, muito lentamente, condenar à inércia a base em que se assentava o empenho pelo mal absoluto, razão de ser dos esforços e atividades infernais disparados, uns em seguida às outras, do reino sombrio onde vinha dando as cartas desde o princípio dos tempos.

Tudo bem: Ele havia feito certa concessão redigindo­ um artigo segundo o qual durante uma semana, nos 360 dias do ano, o Inferno inteiro poderia se tingir com todas as cores do espectro. Certamente apoiado nas aptidões ilimitadas que os seguidores não hesitavam em lhe atribuir, previu o estrago da monocromia e inventou essa tal semana colo­rida por pura misericórdia, sentimento detestável, diga-se de passagem, que a ele, Diabo entre os diabos, causava náusea profunda. Ainda que lucrasse­ e muito, precisava reconhecer, com o intervalo das cores: na pequena vigência delas a sensibilidade ficava mais aguda e a eficiência para o mal, afiada. Mas era muito pouco. Dava só para uma quantia ridícula de iniquidades que não o satisfaziam, mesmo se praticadas nas contundências paroxísticas a que sempre estivera habituado.

Pois então, quando deu por si, séculos e séculos do contrato firmado, o Diabo tentou em inúmeras ocasiões renegociar o tal artigo sem o menor sucesso. N’Ele, a pertinácia inquebrantável era conhecida: quando embicava fosse no que fosse em uma das muitas direções oferecidas pela eternidade, não havia o que o fizesse mudar. Quer dizer, sem chance de que abrisse mão de uma cláusula como aquela, cuidadosamente enxer­tada entre os inúmeros parágrafos do texto, com a acuidade fina de que sempre fora capaz na redação de contratos de toda sorte, geralmente fundamentados nos textos que os discípulos foram escrevendo e largando para trás, um depois do outro, assim que Ele partiu dessa para outra muitíssimo melhor.

Maldição – continuava o Diabo colérico no diálogo mudo com ele mesmo, abandonando por breve hiato o fastio e pondo no lugar sentimento mais afinado com a natureza profunda dos entes de sua particularíssima espécie – até porque era difícil entender a causa de tanta reverência. Pensando bem, Ele jamais correspondera, de fato e ponto por ponto, às maravilhas que sempre lhe foram atribuídas. Para começar era gabola, cheio de si e egocêntrico, defeitos evidentes a se dar crédito ao Evangelho. Lá, estava registrado, ficava o tempo todo desfiando vantagens, uma atrás da outra: Eu sou a luz! Sou o caminho! Fora de Mim não há salvação! E por aí afora passando longe da verdadeira cortesia. Afirmações desse tipo cabem melhor nos pobres de espírito e não são próprias de indivíduos bem-educados. A polidez pressupõe, entre outras condições, extrema discrição acerca das próprias qualidades e quem sai por aí se vangloriando, enal­tecendo a si próprio, não passa de casca-grossa vulgar. Como os discípulos não perceberam isso a tempo dando um jeito no texto, amenizando o excesso de autocomplacência? Francamente, comprometia muito… Ainda­ por cima, convenhamos, o pai d’Ele não primava pela retidão, coisa sempre complicada porque traços negativos como esse costumam comprometer, de um jeito ou de outro, o caráter dos membros de todo um grupo familiar. Mostrou ser omisso, muito apegado ao bem-bom, acionando os dispositivos de controle lá do alto, no conforto dos reinos de hidromel, a salvo da brutalidade que tinha custado muito justamente a ele, Diabo, espalhar e manter desde priscas eras. Por que não veio enfrentar o escárnio da multidão, as chicotadas, a coroa de espinhos e a cruz para lavar os pecados do mundo como dizia ser imprescindível? Não veio e mandou o filho para sofrer como qualquer alma penada de último grau, dessas que entopem os intermináveis chãos do inferno.

Dando curso ao pensamento indo e vindo em torno do que, inegavelmente, era uma formidável derrota, entrava dia, saía dia e o Diabo continuava tão desligado das próprias funções que os doutos do Inferno começaram a temer pela eficiência de seu poder para o aviltamento dos espíritos, nos graus paroxísticos de que sempre fora capaz. Não havia nada que pudesse arrancá-lo do mais absoluto fastio tanto em relação às questões atinentes aos próprios domínios, quanto a seu campo tradicional de trabalho espa­lhado por sobre a extensão terrestre. E como fosse um déspota para lá de esclarecido, armara uma estrutura político-adminis­trativa tão  eficiente que o cotidiano infernal andava sozinho, alimentado pela sábia matriz implantada fazia centenas de séculos com o objetivo de reservá-lo apenas para a função de engendrar maldades, acionando-as incessantemente, e para o cultivo do espírito, sempre na busca do aperfeiçoamento de uma negação absoluta de tudo. Quer dizer, esse afastamento recente do governo infernal não colocava propriamente um problema prático. Estava sendo encarado pelas autoridades infernais mais como problema moral, e aí a coisa se tornava grave porque não era admissível que uma crise com essa origem ameaçasse a raiz da própria perversidade.

Para piorar, nos últimos tempos o Diabo vinha sendo confrontado com a evidente brandura dos métodos que haviam feito sua fama, quando comparados aos graus inimagináveis de torpeza a que estavam sendo levados os humanos, muitíssimo melhor equipados para o aniquilamento de ideias, seres vivos ou inanimados, do que as eficientes brigadas da noite eterna sob seu comando. Qualquer terrorista de quinta ordem, em qualquer latitude, estava se mostrando mais capaz para a destruição do que a maior parte dos venerandos decanos de seu exército. Outra derrota, portanto.

Começava a perder em contundência para os humanos nas ações cujo objetivo fosse destroçar o que encontrassem pela frente; impulso, aliás, que os movia de forma absolutamente intempestiva e indiscriminada. Ele, Diabo, não costumava agir nem patrocinar nada sem, primeiro, estabelecer as justificativas e medir as consequências, operando a partir de cálculos precisos e métodos de cunho racional. E essa era uma diferença e tanto, embora, a um desavisado, pudesse não parecer  à primeira vista. Não se conformava com o que haviam aprontado recentemente em Palmira: destruir obra de arte era absolutamente proibido a qualquer membro das suas hordas malditas. Um templo pagão! Monumento histórico, joia de uma cultura que nem existe mais! Pura barbárie! Odiava gente tacanha e, se pudesse, viveria cercado de objetos bonitos, pinturas, esculturas, desenhos das melhores safras de seus artistas preferidos para ajudar a manter viva a inteligência, porque de cretino não tinha nada e sabia muito bem para que servia a arte. Não era à toa que fora posta aquela cláusula no contrato porque além d’Ele ter, também – e tal seria se não tivesse –, perfeita consciência do imenso poder da criação estética, sempre se mantivera atento às maquinações diabólicas. Tinha consciência, e nisso também estava certo, de que, servido pelas multidões de falsários abrigadas nos domínios infernais, em três tempos ele, Diabo, despiria todas as melhores instituições terrestres das obras de sua preferên­cia, levando-as para o Inferno e pondo no lugar cópias perfeitas. Iniciativa que lhe traria, além do prazer indizível da fruição dos originais, a alegria de passar a perna nos da Terra.

Mas nas circunstâncias a que estava constrangido, impossível. Era só passar a soleira do Inferno para tudo ficar vermelho. Imaginem só a Vitória de Samotrácia rubra das asas aos pés! Ou qualquer dos jardins de Monet emplastrado em tons de vermelho! A única forma de contemplação que lhe restava, em se tratando das artes visuais era, então, se transformar em humano – homem ou mulher, dependia da circunstância – e fazer o périplo dos museus: conhecia todos de cor e salteado e suas escolhas recaíam sempre nos melhores, percorrendo-os de alto a baixo pelo menos três vezes por ano.
Agora, convenhamos: duas derrotas juntas dessa dimensão seriam mais que suficientes para lançar qualquer demônio cônscio das suas responsabilidades na mais absoluta depressão, alimentando sentimentos de impotência em alto grau. Imaginem acontecendo com o Diabo em pessoa?!


COMENTÁRIOS

  • Estou adorando a sua divisão de classes no mundo. E a pior em maldades é a nossa! Louca pra saber a continuação…

  • Eu também apreciei muito o texto, sempre magistralmente escrito, e fico esperando a continuação! Um beijo da

    Heloisa

  • Muito bom. Como de costume. Vista machucada, me obrigou a valer-me do zoom que fez o texto ficar maior e muito melhor porque, facilitando-me a leitura, permitiu que não me cansasse dela, ao contrário, saboreasse sua fina ironia e me obrigasse a pensar aonde pretendia chegar o narrador. Obrigadíssimo, enquanto espero a sequência do texto para ter mais completa a real intenção do escrevinhador.

  • Mais uma das delícias de Ana Luisa, muitas vezes a única, dessas atuais desastrosas segundas feiras. Aliás, nos dias que correm, acordar tem sido quase sempre um susto.

  • Os textos do blog “De tudo um pouco” são biscoitos finíssimos.Nós somos privilegiados e podemos lê-los, todas as manhãs das segundas-feiras.
    Este sobre o inferno monocromático é de uma poesia
    multicor e de uma ironia tão fina que nos remete aos clássicos. Parabéns e obrigado, Ana Luisa, mais uma vez!
    Gilmar

  • Parabéns, minha querida amiga!!!
    Lindo e apropriado texto!!!
    Que pena os jornais não chamarem v. para fazer editoriais om a sua ecrita superior… Bjs.

  • Alô,prima! Muito bom! Fico na espera da continuação. Sugestão: trocar “séculos” por “milênios” e “anos” por “séculos”. BeiJoaquim


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