oretrato

O retrato

25 de janeiro de 2016

Ela tem em casa um retrato do pai feito entre 1950 e 1951 por Arnaldo Pedroso D’Horta. Uma tela a óleo em que a pincelada não aparece e os campos de cor são formados por áreas uniformes, camadas muito finas, como se tivessem sido impressos em off-set – a traço – livres dos pontos da retícula tipográfica.

O pai está com um pulôver sem mangas verde quase esmeralda que jamais teve e, se tivesse tido, certamente não usaria. Gravata vermelho vivo saltando contra o azul claro espalhado no fundo, no pescoço e no colarinho, monocromia inventada para destacá-la junto com o pulôver e com o rosto de expressão melancólica inclinado para a esquerda. Por isso a avó implicava com o quadro que, durante bom tempo, esteve num canto, voltado contra a parede para não haver risco dela cruzar com a tristeza do filho.

A neta, ao contrário, sempre gostou do retrato e quando pode deu um jeito de ficar com ele. Desde menina se interessava precisamente por esse desalento, nada ajustado à personalidade alegre com a qual todos convivíam dentro da casa. Intuia de forma difusa que Arnaldo, com o olhar do artista – familiar a todos os avêssos – havia representado, na figura do amigo, o compromisso com o inalcançável.

Com o passar do tempo essa interpretação foi ganhando corpo. De tal forma que todos os dias no café da manhã, frente ao retrato, ela vê renascer o prisma agudo de Arnaldo, socialista como o pai, compa­nheiro de luta e de ideais. Vê reafirmada a sensibilidade que, na melancolia do jovem intelectual, prefigurou a vitória de uma ordem política e social iníqua, muito distante das expectativas de mocidade tanto do modelo quanto de seu pintor.


COMENTÁRIOS

  • Ana Luisa digital suporte imaterial, conteúdo especial, como de hábito. Parabéns! Feliz pela criação de espaço leve e seleto, no melhor sentido.

  • Que beleza a delicadeza encontrada por Ana Luísa para falar do desalento que é de todos nós nesse momento. Parabéns querida!

  • Ana Luisa, reconheci seu pai, sem mesmo precisar da alusão – “dos avessos” – que remete ao seu precioso ensaio “O Homem dos Avessos” sobre “Grande Sertão:Veredas”. Emocionante a delicadeza de seu olhar sobre ele.

  • Representação do “compromisso com o inalcançável”. Belíssima imagem.

  • Gostei muito. Reconheço o retrato ou penso quê? Acho que reconheço e concordo. Tudo bonito. Até mesmo a avó que preferia o filho risonho, sem saber que o silêncio e o recolhimento também são predicados dele. Bom ter, agora, o retrato, o texto, belíssimo, e referência importante de Antonio Pedroso d’Horta, comigo. Obrigado, muito obrigado.

  • Ana Luísa,
    o blog é um presente e um manifesto contra o mau gosto, o sensacionalismo, as baixarias às quais somos sumbetidos diariamente pelas mídias.
    Obrigado e abraços do Gilmar

  • Há paisagens que não mudam, como as estampadas nos quadros e nas fotografias. Podem envelhecer com o tempo, como no retrato de Dorian Gray, mas seus traços marcantes prosseguem congelados.

  • muito bom esse post e mais ainda a arguta observação …” na melancolia do jovem intelectual, prefigurou a vitória de uma ordem política e social iníqua, muito distante das expectativas de mocidade tanto do modelo quanto de seu pintor.”

  • Entre o pai e o filho, tempos históricos sombrios. Das ilusões revolucionárias, a ausência das liberdades, dos afetos desprovidos dos interesses particulares.
    O estranhamento do filho sobre as escolhas do pai, situação contínua nessas relações, e o elo
    que os netos realizam ao mostrar que a vida, diversa permite o compreender que deve ser a faísca para o transformar. Desde a escolha das cores feitas pelo pintor às dos processos de lutas inexoravelmente definidos pelos limites de nossa compreensão sobre as armadilhas da história. Quando o quadro for colocado de frente ao espectador o afeto ao vivido e às escolhas de cada um poderão ser (re) significadas num diálogo crítico sobre as as temporalidades. Adoro o quadro e tudo o que ele tem permitido desde o texto aos nossos comentários.

  • Gostei do retrato e do texto. Você viu o que eu não conseguiria ver sem as explicações. É o que acontece quando se tem poucos neurônios rsrs…

  • Não sei do que gosto mais,do retrato ou da bela interpretação. Na dúvida,fico com os dois. Obrigada,foi um duplo presente.ABS L.

  • Bom texto para início de mais uma segunda feira.O olhar do pintor captou a melancolia vedada aos olhos dos simples mortais. Com o avêsso exposto a neta e o avô ficaram ainda mais próximos.

  • Outra vez, que beleza de texto!
    Não uma tela a óleo, mas uma fotografia do começo do século XX, tenho um retrato de minha avó paterna ainda bem jovem, com esse mesmo olhar melancólico. Tão fundo, que até me levou a cometer um conto, um dia, há muito tempo…
    Grande abraço.

  • formidável sua associação do individual, do coletivo, do real e do imaginário. Tava só esperando quando ia falar do pai tão amado! Perdoe a insolência de íntima que me sinto sua!Bju


Comente

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*


Ouro sobre Azul | contato@ourosobreazul.com.br | T [55] 21 2286 4874
Rua Benjamim Batista, 153/102 | 22461-120 | Jardim Botânico | Rio de Janeiro - RJ


© Ouro sobre Azul. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Ouro sobre Azul Design