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O TIO

12 de setembro de 2016

Quando a menina era bem pequena a constelação doméstica refulgia nas figuras dos adultos em volta – mãe, pai, avó e tio –, personalidades interessantíssimas e, cada qual na sua intensidade, ocupando os quatro cantos do coraçãozinho dela.

A mãe, linda e quase genial, de tão inteligente, era dedicadíssima mas, mostrando certo paradoxo, tinha a paciência mais para curta.

O pai, um manancial inesgotável de histórias e afeto, vivia tomado pelo trabalho incessante.

Já a avó, muito voltada para a menina, passava as tardes cuidando dela para os pais poderem trabalhar. Então ficava trazendo lembranças da vida inteira que tinham, para a neta, encanto igual ao dos contos de fadas, encadeados um atrás do outro, todos os dias. Também ensinava o padre-nosso, a passar o fio de linha pelo buraco da agulha, pregar botão, costurar paninhos, fazer cama de gato com barbante e, às quatro horas, dava o lanche, cortando o pão com manteiga em pedacinhos de regularidade geométrica. Depois, o banho, porque a menina custou muito a se ensaboar sozinha. E tinha mais: a avó nunca, nunca mesmo ficava brava, fizesse a menina o que fosse.

Já com o tio era tudo diferente. Bonito, alourado e tímido, se integrava numa linha horizontal à fantasia da menina. Enquanto os outros três vinham de cima, ensinando, o tio alongava a experiência dele na experiência da sobrinha, pondo as duas num plano só e indo de uma para a outra sem solavanco.

Foi ele quem ensinou a brincar de rima.

Não valia palavra terminada em  inho nem ão porque, aí, ficava fácil: era só jogar para o diminutivo ou para o aumentativo que a rima vinha no ato. Cada palavra tinha que estar inteira nela mesma:

– Lebre…

– Casebre!

– Pardal…

– Animal!

– Casa…

– Asa!

– Repolho…

– Zarolho!

Outra brincadeira – a menina já mais grandinha, beirando os oito, nove anos –, era para  identificar os pintores europeus do renascimento ao cubismo, nos belos livros de arte da mãe, editados pela Skira. Com isso ela foi aprumando o olhar, conhecendo os artistas e os períodos, conseguindo distinguir italianos de flamengos, neoclássicos de barrocos e assim por diante, o tio sempre perto, orientando. Ele era desenhista publicitário – diretor de arte – e frequentemente varava as madrugadas em cima da prancheta aprontando um trabalho para o dia seguinte, a guache, aquarela, ou concentrado no cuidadoso desenho dos tipos, a serviço de alguma chamada ou de algum título. Às vezes a menina acordava no meio da noite e, percebendo a luz por baixo da porta, entrava sem cerimônia no quarto para vê-lo manejar lápis de cor, tintas, pincéis e bastões de carvão com uma destreza de fazer gosto. Exultava, colada na habilidade e na ternura do tio, até porque, mesmo sendo muito tarde, ele não punha de volta na cama, nem dava pito. Então os dois ficavam ali, próximos, ele com certeza feliz com a companhia que dobrava um pouco a solidão do homem solteiro que foi a vida toda; ela, maravilhada com as coisas que iam surgindo sobre os papéis encorpados – Fabriano, Schoeller, Canson – feitos para receber, sem ondular, tanto o grafite quanto a umidade dos materiais de pintura.

Lidando com os estojos de guache e aquarela, ganhos em cada Natal e cada aniversário, foi com o tio, também, que a menina aprendeu a chegar a qualquer cor, em todas as nuances­ imagináveis, a partir do vermelho, do amarelo e do azul – cores primárias, como ele ensinava. O verde vinha do azul e do amarelo misturados; o laranja, do vermelho e do amarelo; o roxo, do vermelho e do azul: as secundárias. Isso, ela cansou de mostrar para os primos e para os amigos que reagiam invariavelmente do mesmo jeito: ou duvidando – fazendo pouco dela –, ou encantados. Não havia possibilidade intermediária. Muitas vezes era preciso partir para a demonstração prática senão, nada feito. E sempre que a menina revelava a alguém a dança das cores, vinha à cabeça dela a expressão doce daquele tio, ensinando tudo com paciência de Jó, fazendo ver que gostava tanto da companhia da menina quanto a menina gostava da companhia dele.

Foi do tio, diga-se de passagem, que ouviu, pela primeira vez, que arroz branco não acrescenta nada à saúde ao contrário do arroz integral, rico em quase tudo. Só comia desse, sozinho, no almoço e no jantar, enquanto a mãe, o pai a avó e ela própria se concentravam no branco sem querer provar do outro.

Era maníaco com cultura japonesa: lutava kendo; o chambre era um quimono cortado em tecido de estampa discreta, preto e branco; frequentava todos os restaurantes típicos da Liberdade, atrás de sushis e sukiyakis, pratos que no corrrer dos anos de 1940, 1950 e início de 1960 ficavam restritos à colônia japonesa e ainda não tinham se espraiado.

Um dia ele chegou do trabalho com uma boneca deslumbrante, quimono vermelho de seda lavrada, cabelos completamente lisos, bastos, pele alvíssima – dois olhos amendoados abertos nela –, sustentada por um suporte de madeira em laca negra mantendo-a em pé, numa ligeiríssima mesura, como só as japonesas sabem. Era boneca de enfeitar, não era para brincar. A menina pôs no quarto dela, em cima da cômoda, e ficou lindo.

Cada um dos adultos da casa tinha um estilo diferente de contar história. Os craques eram o pai e a avó. A mãe não sabia nenhuma de cor e nem inventava nada: só lia em voz alta. O tio, por sua vez, tinha o hábito de reproduzir a literatura que o impressionara na infância, como As aventuras do barão de Münchhausen, de que a menina gostava só mais ou menos porque o interesse dela, pelo tio, não repousava nas histórias.

No entanto, certo dia, ele misturou um tanto delas – o barão de Münchhausen e Don Quixote eram presenças nítidas – e começou uma série chamada A história do general Piropapivodas e de seu cavalo pedrês: uma verdadeira maravilha. A menina ficou completamente galvanizada e só queria saber daquilo, exigindo do tio um capítulo atrás do outro.

Aconteceu – por má sorte, a história em pleno curso – que, uma noite, ela se debateu muito num pesadelo, revirando de um lado para o outro em cima da caminha, assustadíssima. E por conta de algum gesto ou de alguma palavra solta durante a agitação, o pai ligou aquele mal-estar às aventuras do general Piropapivodas. Conversando no dia seguinte com o tio, os dois resolveram interromper a narração, para desespero da menina que insistia para o tio continuar, ele sempre dando um jeito de não atender, sem nenhuma explicação. A menina sofria!… O tio sempre tão bom, por que aquilo?! Ela ficava numa aflição, numa vontade de chorar! Dia após dia a mesma coisa, ela pedindo, pedindo muito e o tio, sorriso discreto, olhos baixos, mudava de assunto com delicadeza. Até ela desistir de vez, mortificada, segura de que nunca mais na vida ouviria história igual à daquele general meio amalucado, solto no mundo atrás de aventura, montado no cavalo pedrês e seguido pelo escudeiro fiel, indo com o patrão para onde quer que ele fosse.

A partir daí, a mãe, a avó e o tio, instruídos pelo pai, um doce tirano, passaram a contar à menina apenas histórias que não assustavam e tivessem final feliz, para ela não se excitar demais e sofrer, sacudida por pesadelos. Com isso, mostrando o melhor dos propósitos, o pai não fez senão dificultar à menina a convivência indispensável com a oposição entre as noções de bem e mal – luz e sombra –, próprias dos contos de fada e fundamentais para a organização emocional de qualquer um.

Dessa forma, A história do general Piropapivodas e de seu cavalo pedrês, associada à lembrança querida do tio, permaneceu como a possibilidade perfeita da fantasia, inconclusa e suspensa na frequência caprichosa do tempo.


COMENTÁRIOS

  • Eu, que nunca tive ninguém que me contasse histórias, agora conto pros netos…quem sabe, um dia, algum deles me dedique um texto como esse.

  • Na minha pré adolescência o tio da menina assumia o rosto do personagem principal dos livros de Elinor Glyn. Belo, imponente e em minha imaginação não usava roupão e sim um quimono.

  • Ana luisa
    Que história linda ! e que memória ! Fui lendo, reli e tudo me pareceu tão familiar. Acho lindo que nossas infâncias tenham sabores parecidos com histórias e afetos bjs

  • Ana Luisa, nós, quando crianças (e, até talvez, na adolescência e juventude), vamos tecendo nossa vida com fios de fantasia e realidade, como o faz a menina, nessas “memórias” tão bem contadas! Um beijo da

    Heloisa

  • Uma descrição fascinante. Tudo se encaixa bem na vida da menina. Lembranças felizes dentro de um lar de amor. Hoje, essas lembranças encantam seus leitores e os fazem viajar nesse passado já tão longe e, ao mesmo tempo, tão próximo.

  • Que grande contadora de estorias! Sera que os netinhos (as) ja tem idade para apreciat? Grande beijo, amiga.

  • Eita maravilha! Mais uma para trazer lindas emoções a essas segundas feiras dificultosas…Adorei.

  • Uma viagem no tempo. Vi as cores se misturando os desenhos aparecendo e ouvi historias encantadas. Delicia! Parabens amiga!

  • Suas histórias sensíveis e sempre muito bem urdidas, Ana Luísa, confirmam seu pendor pela difícil forma breve. O relato de hoje nos faz reabrir inesperadamente páginas do grande livro da infância, impregnadas de assombros e delícias.

  • Se você brinca com a memória ou cria a partir de, pouco me importa. Importa que gosto por demais de textos como este que você escreve. Delicado, de fácil e agradável leitura, vontade de ler e reler para saborear a força narrativa da menina que não se perde em descrições desnecessárias e aprender com o tio. Relato primoroso. Quanta coisa presa à fantasia “inconclusa e suspensa na frequência misteriosa do tempo”. Afetuoso abraço.

  • É delicioso começar a semana lendo as suas comoventes histórias (ou estórias?). Obrigada!
    um abraço da sua admiradora à distância,
    Viviana

  • gostei. que tal escrever e completar a história do general Piropapivodas?

  • De tios, cores e generais se forma uma artista!
    Todos, em maior ou menos escala, temos esses elementos, na via real ou na imaginação, mas nem todos nós nos tornamos seres criativos.
    Flora

  • Ana Luísa,

    bela história feita de pedaços de narrativas e de personagens que cresciam aos olhos da menina.
    É sempre assim. Querem nos poupar do que provoca desestabilização, criticidade, desconforto. Mas a vida não se faz com histórias de final feliz. Não existe final feliz. A menina deve ter ido buscar outros relatos densos, pela vida afora. Espero que os tenha encontrado.
    Abraços,
    Gilmar


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