imagem um ex-senador.indd

UM EX-SENADOR DA REPÚBLICA

30 de maio de 2016

Olhar quebrado, mais magro, terno e colarinho dançando longe do corpo, o pobre político enfrentava, numa espécie de arena que o punha abaixo de todos em volta, o grupo de jornalistas alçados a guardiães da ética que, no programa de televisão, faziam perguntas prolixas, mais parecendo discursos. E formulavam a própria curiosidade de maneira incisiva – quase grosseira – usando um vocabulário e uma construção de frases que serviriam melhor à bisbilhotice acerca da vida alheia do que a mais um desses episódios inverossímeis da dramática cena recente, tendo como pano de fundo a política brasileira. Sôfregos pelos detalhes, se não sovavam mais forte não era certamente por generosidade, mas medo de exaurir o lutador, apagando-o num nocaute prematuro.

Abatido, expressão antes doce, o senador cassado – em prisão domiciliar –, fazia e refazia a mea culpa sem conseguir aplacar, em nada, as disposições sangrentas dos que o entrevistavam. Que tinham diante de si alguém derribado pelos próprios atos, provavelmente pagando caro pela inadvertência –  desonestidade, ânsia de poder – e pela adesão a um bloco político corrupto e corruptor.

Na frente da tela, vendo a imagem triste do entrevistado tentando cerzir a biografia esfrangalhada, solícito com os jornalistas ao virar seguidamente os 360 graus da cadeira giratória para atender ao que, na verdade, não  passava de curiosidade malsã; na frente da tela, assistindo à transmissão, talvez ocorresse a algum espectador, por puro exercício mental, conviver com a hipótese de estar ele próprio ali, diante das câmeras, no lugar daquele homem, usando a tornozeleira eletrônica da qual o ex-senador escapara por pouco, sucumbido pelo mesmo desastre imposto à familia, à carreira e ao futuro imediato, bastando, para isso, que também tivesse ultrapassado a fronteira. A mesma separando a zona onde costumam se abrigar o bom senso e a retidão moral – entre tantos outros traços –, para, empurrado pela fraqueza, cair no terreno turvo dos atos ilícitos a partir dos quais dificilmente há retorno possível. Nos actes nous suivent, como dizia Paul Bourget, intelectual e escritor francês nascido no século XIX, hoje esquecido. Nossos atos nos seguem, de fato, implacável e inapelavelmente, para sempre. Como cada um de nós vai percebendo, no seu tempo e na sua hora, passo a passo, ao tentar vencer o acidentadíssimo caminho da existência.


COMENTÁRIOS

  • Texto reflexivo, denso, humano, espelho de época. Me fez lembrar uma frase do Millor, que dizia que “Viver é desenhar sem borracha”. Cada traço nos segue. Para sempre.

  • Que texto incrível ! Atual
    Os corruptos com a impunidade, acreditam que nada vá atingí-los
    Destroem a sua reputação , a da familia e dos que estão a seu redor.
    Mas, sou a favor do Lava Jato e da imprensa responsável.

  • Para além do sensacionalismo dos meios de comunicação,não se deve esquecer, como você diz, o olhar que lamenta a tragédia de uma vida desperdiçada. Um beijo da

    Heloisa

  • Que texto primoroso! Tão bem escrito que por alguns minutos quase me esqueci que a situação era trágica, que a condição humana é frágil e efêmera e que este pobre país, com todos esses políticos corruptos, é a casa de todos nós. Que tristeza!

  • Lindo artigo, Ana.Achei extraordinárioa a citação do Paul Bourget! Que é lembrado tanto quanto os irmãos Tharau, ou seja, nada…
    E o nos da cistação também deve aparecer em itálico. Parabéns!

  • Da maior importância lembrar que mutatis mutantes estamos todos no mesmo barco ainda que variem as posições em que nos encontramos graças ou devido aos nossos atos que, sem dúvida, nos seguem…mais uma ótima crônica para ativar nossos neurônios…

  • Você anda machadiana, Ana Luisa, embora seu nada herói me lembre também os senadores de Alencar.
    Texto primoroso.
    Parabéns.
    Em tempo: o papel da mídia nem sempre é golpista (você não o diz) nem malsão. Questão de “opiniães”.
    Beijos,
    Flora

  • Ana Luisa,

    a volta ao factual revela que os textos do blog têm uma grande coerência interna e entre si.
    O texto sobre o senador é contundente e ao mesmo tempo desmonta o maniqueísmo ao mostrar sua fragilidade. Um texto curto, muito bem construído e que nos leva a pensar, o que é importante nestes tempos que vivemos.
    Abraços,
    Gilmar de Carvalho


Comente

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*


Ouro sobre Azul | contato@ourosobreazul.com.br | T [55] 21 2286 4874
Rua Benjamim Batista, 153/102 | 22461-120 | Jardim Botânico | Rio de Janeiro - RJ


© Ouro sobre Azul. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Ouro sobre Azul Design