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UMBERTO ECO

22 de fevereiro de 2016

Há exatos quarenta e seis anos, três jovens designers brasileiros, recém-saídos da universidade, partiram para um trecho do mundo rico – Suíça e norte da Itália – na intenção de conhecer algumas das personalidades que povoavam a fantasia de quem estava atento às realizações do design, naquele momento. Rodolfo Bonetto, Bruno Munari, Anton Stankowsky, Umberto Eco e Bob Noorda, da antiga Unimark Internacional de onde sairia Massimo Vignelli, para fazer carreira nos Estados Unidos. Como peregrinos à Terra Santa, os três viviam cada contato com o fervor dos devotos em busca da revelação. E tanto na Itália quanto na Suiça, experimentavam a sensação confortante de se sentirem integrados a uma atividade com lugar definido e espaço de expressão assegurado, circunstâncias até hoje ausentes do cotidiano profissional do designer brasileiro. Incrédulos, ouviam um intelectual da dimensão de Eco se referir a Glauber Rocha com o mesmo respeito e admiração com que se referia a Ettore Sottsass, visto como criador também genial, dono de uma das personalidades mais interessantes da Itália.

Neste momento, Glauber terminava, na Europa, O Leão de sete cabeças e Cabeças cortadas e seu prestígio internacional talvez jamais atingisse índices mais altos. O grande cineasta e o grande designer equiparados. Duas linguagens, duas maneiras originais de articulá-las. Os três meninos, entre excitados e céticos, se perguntavam quando, no Brasil, um intelectual de porte equivalente, trataria o design e suas realizações com o interesse e a deferência que Umberto Eco dava a Sottsass.

Quarenta e seis anos passados.

No Brasil, nem o design italiano nem o design suíço parecem atiçar mais a imaginação de estudantes e profissionais. Sempre reverente ao que se faz lá fora, o designer brasileiro substituiu seus modelos sem, no entanto, ter conseguido conquistar o interesse do público para o qual projeta e muito menos a compreensão dos agentes de quem costuma partir a demanda por seu trabalho.

Quarenta e seis anos. O tempo aproximado em que a Identidade Corporativa japonesa partiu do zero para se transformar numa das formas de expressão gráfica mais vivas do planeta e, no Brasil, ninguém sabe direito o que é um designer nem para que serve.

Quarenta e seis anos passados.

Umberto Eco, moço ainda em 1970 e já bastante conhecido fora da Itália, onde parecia ter mais prestígio do que no próprio país, recebeu os meninos com uma cordialidade e um interesse raros em qualquer europeu. Principalmente se considerarmos que os três não passavam dos 24 anos e vinham da América Latina, naquele tempo, como acontece ainda, pouco respeitada culturalmente pelo mundo dito civilizado.

Os encontros foram longos e Eco manifestou, em ambos, numa irreverência condescendente, bem dele, conhecimento de certas constantes da cultura brasileira, vistas por nós como traços de indigência, saudados por ele como manifestações de grande originalidade. A tendência para inventar nomes próprios, por exemplo – Isarnildo, Ciliomar, Auni, Walney –, e o uso de sobrenomes ilustres, alguns carregados de estigmas duros de portar, alçados à categoria de prenomes: Washington, Hitler, Lincoln, Chauteaubrind, Edson. Saboreava cada um desses nomes destacando-lhes, deliciado, o som, sílaba por sílaba. E contrapunha a eles a obrigação italiana de identificar os seus por meio dos santos, ou de integrantes da cultura clássica, greco-romana e também da hebreia.

Outro traço brasileiro que fazia questão de acentuar, sempre na chave etnocêntrica que costuma votar ao diferente a benevolência de uma certa superioridade, era o interesse pelas religiões afro-brasileiras. Dizia não entender porque os intelectuais brasileiros ficavam se voltando tanto para a produção europeia, em qualquer área do saber, quando tinham à mão o mundo rico e complexo das mitologias africanas, nas suas várias acomodações a nosso país. Pura coquetterie, aos olhos dos três meninos que, justamente, insistiam em caminho inverso, seguros de estarem se enriquecendo no contato com o design suiço e italiano, praticados naquele período.

Quarenta e seis anos passados, morre Umberto Eco dias atrás, neste fevereiro de 2016. Certo jornalista brasileiro, embevecido frente a aura ganha depois de O nome da rosa, comenta, no telejornal, o encontro obtido a muito custo numa Bienal de Frankfurt com o homem de difícil acesso, sarcasmo ferino, humor oscilante e pouca paciência. Nada que pudesse lembrar o intelectual atencioso, verdadeiramente interessado naqueles jovens designers latino-americanos com os quais esteve longamente por duas vezes: numa delas na própria casa, noutra, fazendo questão de passeá-los por Milão e apresentá-los a um bairro boêmio cujo nome, passados tantos anos, infelizmente a memória não reteve. Num aviso de que podemos todos ir nos desdobrando ao longo da vida para nos multiplicar em muitas figuras, diferentes umas das outras, nem sempre melhores do que aquelas que nos caracterizavam quando ainda estávamos menos adiantados no trajeto rumo ao fim.


COMENTÁRIOS

  • oi Ana, adoro seu jeito de contar histórias. Ainda mais quando essas histórias são recheadas de referências ao design gráfico. Sinto enorme saudade das conversas que tínhamos no período do 19 design.
    Beijos

  • Uma lembrança gostosa do grande Umberto Eco que infelizmente só conheço do Nome da rosa e dos livros de Semiótica.

  • É um prazer ler seu excelente texto, sua cultura, a grande designer q vc é.
    Gostei muito também da matéria do Zuenir sobre o ECO.

  • Que belo texto ! ressaltando a parte humana desse homem extraordinário bjs e parabens

  • Cara Ana Luisa,

    Facilmente explicável a diferença de tratamento que Eco deu a três jovens designers latino-americanos e a um jornalista. Ele é um dos intelectuais que, especialmente pós-Berlusconi, criticava o poder da mídia e seus agentes. Ele continuou interessado e gentil…com quem parecia ter algo a dizer.. Quanto ao design brasileiro, essa seria uma comprida discussão que não cabe aqui. Com o abraço da Ethel

  • Muito bom, Ana. E o design brasileiro continua tendo pouco reconhecimento…

  • Muito tocante a lembrança delicada do deslumbramento dos três meninos e do acolhimento afável de Humberto Eco. Um momento para ser guardado na memória e, agora, compartilhado conosco.

  • Homenagem sensível, maravilhosa. Grandes estudiosos sabem a quem dedicar atenção e zelo. Belo texto.

  • Que memória a sua! Registrou a conversa como se tivesse acontecido ontem! Belo texto.

  • Há dois dias assisti na GNT a uma entrevista deliciosa, parece que das últimas que ele deu, lúcido e inteligentíssimo, atualizadíssimo e muito bem humorado

  • Que lembrança legal, não sabia desse lado do Eco, conte mais! Eco e o design? Sabemos muito pouco sobre este assunto!Eco e Glauber, curioso!

  • Ana Luisa, vc leu o Viagem pela irrealidade cotidina? Como estive agora na Califórnia, me lembrei demais desse livro. Na verdade, a idade em geral acentua os traços de nosso caráter, não é? Bjs.

  • Uma aula para quem como eu só conhece vc como designer . Merecida homenagem ao Ecco . Li alguns livros dele ,gostei mas não amei. Meus poucos neurônios tornavam difícil acompanhar a erudição que ele fazia questão de mostrar. Zero, seu último livro publicado foi o mais divertido é fácil de todos.

  • Excelente texto que nos traz, de uma lado, a trajetória do design brasileiro e de outro a figura de um grande intelectual recebendo com a maior generosidade os estudantes que o procuraram. Uma linda homenagem para um grande escritor.

  • Quarenta e seis anos passados e você narra com emoção, que se transmite a nós, seus leitores, igualmente emocionados.

  • Lindo texto, tocante em todas as notas. Desde o encontro raro com pessoa igualmente rara até a sensibilidade no encontro de culturas. Gostei muito.

  • Um jeito carinho de se referir ao Eco sem a frieza de um obituário e sem a burocracia de quem lista livros por ele publicados. Um jovem Eco, se podemos dizer assim. Obrigado pelo texto que me deixou comovido.


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