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ZULMA

19 de setembro de 2016

–Sempre a última! – reclamava, cara amarrada, fazendo graça no histrionismo que divertiu três gerações: a dela, a dos sobrinhos e a dos sobrinhos-netos. Era a última de uma prole de 12 dos quais 10 tinham conseguido vencer a barreira da infância, atingindo a vida adulta no princípio do século XX, período em que, para resistir, era preciso saúde de ferro e o bafejo da fortuna, driblando moléstias de toda a sorte, mais a falta de conhecimento médico em lidar com elas. Tinha nascido num dia 31 e seu nome começava com Z desfiava, sempre com humor, enumerando a fila de rabeiras lançadas em torno dela pelo destino.

Atentíssima a tudo e a todos reproduzia com graça o que se passava à volta, mimetizando tipos humanos que, em histórias sempre inventivas, acabavam muito mais interessantes do que os originais de que tinham partido.

As empregadas, por exemplo, eram fonte inesgotável de inspiração, modelos para as  personagens que povoavam suas histórias, recriadas a partir dos traços de comportamento mais evidentes em cada uma. Piedade, a copeira portuguesa enfezada, moça ainda, fazia só o que lhe passava pela cabeça e nada mais. Siá Felícia, espanhola velha e sibilina, cuidava da cozinha, permanentemente em guerra com a Piedade, sem que nada nem ninguém pudesse dar conta do conflito diário e contínuo entre as duas. Poucos dentes amarelos esquecidos no maxilar superior, cabelo grisalho preso com displicência num coque no alto do cocuruto, expressão fechada e avental até o pé – como a saia embaixo dele –, não achava graça nenhuma nos sobrinhos-netos, crianças que a patroa recebia com prazer o tempo todo. Zulma imitava na perfeição o português esburacado de siá Felícia – cheio de espanholismos pelo meio – e o sotaque de portuguesa com cabelo na venta da outra, sempre prestes a estourar. Certa vez tentou instruir a Piedade para que servisse de maneira adequada à mesa, num jantar de mais cerimônia.

– Escute aqui, Piedade, comporte-se como vou lhe dizer! Eu faço os pratos e você leva, primeiro para a senhora, depois para o marido e só depois serve ao senhor doutor, entendeu?

– Entendi sim senhora.

Chegada a noite do jantar Zulma fez o primeiro prato e a Piedade o depositou, sem hesitação, em frente ao dono da casa. Apenas depois serviu às visitas: primeiro à senhora, depois ao marido.

Quando o casal se despediu, Zulma foi atrás da Piedade:

– Mas nós não combinamos, criatura?! Eu disse a você para servir primeiro as visitas, começando pela senhora!

– Disse sim senhora! Estou bem lembrada! Só não achei certo servir ninguém à frente do senhor doutor que é quem arca com as despesas todas desta casa! – estava acabado e ela se fechava em copas. Assim como nessa ocasião, em inúmeras outras as coisas corriam de acordo com as convicções dela, não para atender às ordens da patroa.

Como a irmandade tivesse parado logo acima, em 1895 – ela era de 1896 –, depois de todos já terem ido tratar da vida, Zulma ficou, por bom tempo, vivendo com a mãe e com o padrasto, até se casar aos 28 anos. Dali para a frente, junto do marido, tisiologista com boa clínica, levou uma vida agradável em São Paulo, morando em casas confortáveis sempre abertas aos parentes, principalmente aos cinco filhos de uma das irmãs, aos quais  atendeu com a dedicação com que atenderia aos próprios filhos se os tivesse tido.

Entre fins de 1920 e 1940, ao sabor dos caprichos do marido que se dava ao luxo de variar de endereço, numa época em que São Paulo ainda não havia se refeito da crise de 1929 deixando vazias muitas casas de fazendeiros empobrecidos, o casal passou por várias, gravadas na memória dos sobrinhos, cada qual com seu traço particular. A casa da rua Goiás – parecendo um castelinho como os dos contos de fadas –, clara, janelas de um marrom avermelhado, três andares, o último, um conjunto de cômodos independentes do resto, a escada de cedro infindável – comprida, comprida – ligando tudo. A da Bela Cintra, térrea, ampla, plantada diretamente sobre o solo, jardim comportado contido pelo cimento que o contornava por todos os lados e por isso, dessa, as crianças gostavam menos. A da São Vicente de Paulo, erguida sobre um porão de pé-direito generoso, terreno imenso nos fundos, muita terra para brincar, muita fruta e cheio de árvores de todo tipo; num dos  lados, o terraço longo protegido por grades de ferro e um piso de ladrilho hidráulico, geometrismo bonito se multiplicando em cores severas. Porque era sempre assim: passado certo tempo, o marido enjoava da casa e pedia à Zulma para ir atrás de outra. Feita a mudança, todas eram mobiliadas com discrição, excelentes quadros nas paredes e esculturas de qualidade dispostas pelos cantos, adornos onde, em geral, o mau gosto burguês se revela sem remissão mas que, na casa deles, tinham, invariavelmente, muita categoria.

Depois de viúva, toda de preto ou quase só – seguindo a tradição das senhoras da família –, Zulma ia todas as quartas-feiras jantar na casa do sobrinho, filho de outra irmã, sobrinho a quem fora ligadíssima pela vida afora, mais do que a qualquer outro. E era bonito ver o ajuste entre os dois, as afinidades, o desfiar das lembranças comuns, as macaquices a que se davam, no tempo da visita, reproduzindo os inúmeros tipos humanos povoando histórias de um grupo familiar fechado em torno de si mesmo. Que, por causa disso, havia construído um mundo à parte, com cacoetes, vocabulário e comportamento particulares de forma que, para entrar nele, só mesmo depois da iniciação a que eram submetidos os que iam chegando, mulheres ou maridos de sobrinhos e sobrinhas, todos devidamente, e a seu tempo, inoculados pela cultura de uma gente mais para peculiar.

Muito velha, entrada com folga na casa dos oitenta e esperando tudo acabar estendida numa cama, naquela semiconsciência de quem já está entre a vida e o nada, perguntava a cada visita:

– Eu já morri, sobrinho?

– Ainda não, Zulma…

E como não tivesse morrido, conversavam mais um pouco, muito pouco mesmo: no alcance estrito das forças frágeis que ainda insistiam nela.

Pois numa dessas visitas saiu-se com essa, dando bem a medida de graça e do senso de humor que ficaram, até o fim:

– Deus é muito cheio de si, gabola, você não acha?

– Talvez, Zulma…

– Vive disparando a torto e a direito: Eu sou a luz: o caminho! Fora de mim não há salvação! Uma pessoa bem-educada não atribui tantas qualidades a si mesma!
Poucos dias passados dessa curiosíssima constatação, morreu tranquila depois de repetir várias vezes que, havia bom tempo já, não tinha mais gosto nenhum de continuar vivendo.


COMENTÁRIOS

  • Adorei o comentário que você está parecendo o Nava. Adorei também essa história deliciosa da Zulma,valeu Isinha.

  • Pude apreciar de perto nas visitas que fazia ao Rio de Janeiro a personalidade marcante e o humor sempre pronto a disparar dessa inesquecível figura humana. Viva Zulma!!!

  • Ana Luisa, você pinta, com vivacidade, o retrato de uma Zulma, de uma família e de um São Paulo que já não existem mais e que merecem ser retidos na memória, evocados pelas palavras de seu belo texto. Um beijo da

    Heloisa

  • Quero mais desse “léxico familiar” (citando aqui o belo livro da Natalia Ginzburg)! Muito bom, Ana! Bjs

  • Eta Zulma, vivam as Zulmas!
    E não é que Deus é gabola mesmo. O dela, pelo menos, o era.
    Ana, você está me lembrando o Nava. Cê vai longe, menina!
    Beijins,
    Flora

  • Ana Luísa,

    Belo e competente perfil.
    Zulma pode ser compreendida como uma metáfora do século XX.
    O importante é que ela manteve aos oitenta a irreverência que muitos perdem com o envelhecimento. Gostei de saber que se pode envelhecer mantendo a iconoclastia e relembrando as muitas casas, como estações de uma vida talvez mais divertida que a nossa.
    Abraços,
    Gilmar


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