
Em meados do século XIX um fazendeiro da região de Araraquara veio ao Rio comprar escravo no Valongo. Chegando, seu interesse recaiu num homem soberbo. Alto, fortíssimo, sobressaindo-se dado o porte e já nascido no Brasil: vai daí, sem entraves de comunicação.
O fazendeiro fez um exame detido, próprio de qualquer transação de vulto:
– Mostra os dentes, negro! Deixa ver a sola do pé! As mãos! Saúde firme? – e assim por diante, no inquérito dirigido, a um só tempo, ao mercador e à mercadoria.
Finda a avaliação e querendo fechar logo o negócio, foi ao escravo e fez a pergunta de praxe, mera formalidade antecedendo qualquer compra no Valongo:
– Você promete me servir com lealdade?
– Não prometo não senhor.
O fazendeiro levou um susto mas se recompôs e repetiu a pergunta, receando não ter escutado direito:
– Você promete me servir com lealdade?
No que o outro repicou:
– Não prometo não senhor.
Então, se dando conta de que tinha ouvido muito bem, soltou colérico:
– Escuta aqui, negro, vou perguntar de novo, veja lá como responde! Promete me servir com lealdade?
– Não prometo não senhor.
Então, virando enfurecido para o mercador, que não sabia onde se enfiar, decidiu no ato:
– Levo este aqui!
Pagou, pegou o tal – mãos amarradas – e veio do Rio até Araraquara.
Ele a cavalo, o escravo a pé.
Cerca de 650 mil metros percorridos, sem piedade, em muitíssimos dias.
Ele a cavalo, o escravo a pé.
Quando chegaram o pobre estava esbodegado, mal conseguindo se manter nas pernas.
Então o fazendeiro fez de novo a pergunta antes de entregá-lo ao feitor:
– E agora, negro? Promete me servir com lealdade?
No que o pobre puxou, valente, do fundo do peito, numa voz esgarçada:
– Não prometo não senhor.
Aí a teimosia bateu no limite das possibilidades daquele homem – nada elásticas nem compassivas, diga-se de passagem, nutridas da prática incessante do mando – e ele ordenou que aplicassem 50 chibatadas no escravo, trancando-o, em seguida, na cafua.
Quando foi no dia seguinte e como não tivesse pregado o olho de tão enquizilado com o acontecido, chamou o feitor para saber do negro.
– Patrão, o negro sumiu…
– Sumiu? Como sumiu?!
– Não sei não senhor, mas sumiu…
– …
– A porta não foi arrombada e nas barras da janela ninguém relou… Estão lá, hoje, como ficaram ontem: inteirinhas… O senhor quer que eu chame o capitão do mato para caçar o infeliz?
O rosto do fazendeiro ficou branco como um céu de inverno. Olhou para o chão fixando bem a cerâmica estendida nele, decorada com uns desenhos já esmaecidos. Quando levantou o semblante, era outro homem. Calmo e parecendo conformado:
– Não. Não precisa… Deixa…
Sentou numa cadeira dura e espetada que ficava num dos cantos do terraço, fincou a vista no horizonte por bom intervalo, depois, levantando, aprumou o porte e foi tratar da vida. E nunca mais nem ele nem ninguém teve notícia do paradeiro daquele escravo.